segunda-feira, 29 de maio de 2017

RAPÉ: Pó com whisky e um pouco de Jurema Preta...

Por: Jairo Lima

Sinceramente, o Brasil perdeu as estribeiras, de maneira escancarada nesta funesta semana que quase não termina. Fotos de corpos ensanguentados na chacina de sem-terra no Pará misturavam-se a cenas grotescas de prédios queimando no Planalto Central, saltando da tela fria do meu computador como partes de um horrendo filme Classe B.

Tentando manter a sanidade e uma certa prudência nas leituras e interações com o mundo ‘exterior’ (para mim, esse mundo é o que acesso através do meu computador), restringe muito o acesso e a interação, no intuito de evitar polêmicas ou discussões inúteis sobre temas que já tenho minha própria opinião formada.

Enquanto dava conta dessa roda viva existencial profissional e pessoal que é a vida da gente, entre as mensagens interessantes que recebi, teve uma do Jornalista Altino Machado que me indicou a leitura de um artigo da revista Piauí, sob o título ‘DE VOLTA AO PÓ - A ressurreição do rapé’ (clique aqui). Texto bizarro, na verdade, mas bem interessante, e que de certa forma, sistematiza muito a sobre do que venho refletindo e escrevendo nestes últimos meses.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

COMO É QUE VOCÊ PODE VER TANTO, MAS NÃO ENXERGA NADA?

Por: Raial Orotu Puri

Há alguns anos atrás, li um conto de Marina Colassanti intitulado “O homem atento”.
Nunca estive a salvo dos contos dessa autora, visto que quase tudo o que ela escreveu me causa algum tipo de sentimento diverso: choro copioso, trauma de trauma irrecuperável, melancolia, amor incondicional. Essa história em particular, no entanto, está no rol daquelas que fazem pensar e estabelecer analogias sobre minha forma de interagir com a vida.  Trata-se do caso de um indivíduo que era – ou acreditava ser – capaz de perceber tudo à sua volta. A sensação de onisciência prossegue até o momento em que ele se dá conta que seu desejo de eterna atenção, mesmo para alguém possuidor uma percepção extraordinária, não é real; mesmo tendo a capacidade de ver uma grande parte das coisas, há sempre algo que passa despercebido. E as vezes ocorre que vejamos tudo, exceto o mais essencial. ´A descoberta do tempo que passara atento, e ainda assim tão distraído, é levemente melancólica, mas é também imbuída do prazer e da surpresa de viver uma emoção no mundo real, e não apenas meramente assistir.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

POLÍTICA INDÍGENA NO ACRE: Reflexões sobre a ‘Carta de Maio'...

Jovens Huni Kuin - Foto: Assis Huni Kuin
Por: Jairo Lima


O mês pluvioso* continua a toada desconstrutivista da índole nacional e da sanidade mental, dos que teimam em acompanhar cada desdobramento desta triste comédia que insiste em não ter um ‘último ato’.

Minha crônica da semana certamente  não será de agrado geral, até porque o foco será político, mais precisamente sobre o que vou chamar aqui ‘política no Acre indígena”, ou seja, um tema bem provinciano mesmo, daqui da terra de Galvez, o que certamente desmotivará alguns leitores. Dou este aviso logo de início para que os que quiserem já ‘pularem fora do barco enquanto está perto do barranco’, abandonando o restante da leitura.

Vamos lá…

sexta-feira, 19 de maio de 2017

ÍNDIO NÃO É GENTE: é passarinho....

Por: Domingos Bueno


"Os brancos pensam que índio é igual passarinho: tá lá no mato vivendo livre, solto... É só disso que precisam..."

Dessa forma uma liderança Kaygang começou sua fala durante um encontro recente em Curitiba, PR, para discutir visibilidade e violência contra indígenas, que revela algo que eu já refletia em torno dessa relação ambígua que estabelecemos com as sociedades tradicionais.

Desde a invasão colonizadora das Américas até hoje, os indígenas ocupam um lugar difuso e liminar  tanto no imaginário popular como nas políticas oficiais. No chamado descobrimento oscilavam entre ingênuos desconhecedores do pecado, vivendo em estado de graça no paraíso Adâmico, até bárbaros selvagens (bárbaros porque etimologicamente eram estrangeiros que falavam uma língua diferente e selvagens porque viviam na selva), que praticavam canibalismo; uma gente sem fé, sem lei e sem rei que dá pra traduzir por herege, sem religião e igualitários, ou seja, que lutavam contra todos os valores e práticas de dominação que as sociedades "civilizadas" (domesticadas) utilizavam.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

CHÚRI, UK’HUA, SANNÁ: sobre os Puri, Museus, a Exposição no MAR e a resistência

Por: Raial Orotu Puri

 
Talvez esta crônica não acrescente nada de muito novo para quem a for ler. E talvez esse seja um péssimo jeito de começar um texto, já avisando de antemão de que ele tende a ser repetitivo... Mas, ocorre que algumas proposições parecem requerer um nível mais intenso de defesa argumentativa, para que se assentem como um elemento concreto, mesmo que, não raro, esse conceito seja absolutamente óbvio, e praticamente inegável.
A existência do meu povo é, por exemplo, uma dessas ideias. Interessante, não? Aliás, digo isso, não apenas tomando os Puri em isolado, mas pensando na resistência indígena em geral, e na negação perene imposta à possibilidade de uma existência indígena contemporânea, seja ela mantida sobre valores culturais considerados como ‘tradicionais’ – a vida em uma aldeia, a utilização de vestimentas e adornos atendendo às mesmas estilísticas de outrora, etc. – ou seja ela passada em um contexto mais aproximado daquela dos padrões ocidentais. E acho que convém repetir isso, até mesmo para ressaltar o quanto é absurdo que ainda existam, e persistam, reflexões e defesas de uma não-existência dos povos originários na atualidade.

É do mesmo modo bastante absurdo constatar o quanto a presença indígena nas cidades e no mundo contemporâneo seja por tantas vezes hostilizado e tratado como uma desconformidade, um incômodo, uma invasão. Sim, eu também já falei disso... Mas é as circunstâncias têm feito de mim um ser repetitivo: Há sem dúvida algo de errado, uma inversão radical dos polos, quando uma cidade, ou um citadino se mostra incomodado com a presença dos povos originários, perceba-se (Quem é que chegou primeiro, não é mesmo?). Assim como há uma contradição que beira o mau-caratismo nas argumentações do tipo ‘não é índio mais/perdeu a cultura’, como se a gente perdesse a cultura porque foi descuidado enquanto caminhava apressado por uma rua, e houvesse derrubado a cultura e continuado a seguir distraidamente o caminho...

segunda-feira, 15 de maio de 2017

A CULTURA É DINÂMICA E TEM SUAS ‘MODAS’, MAS NÃO É BAGUNÇADA …

Por: Jairo Lima


Tivemos uma semana bem molhada aqui pelo Juruá. Choveu muito, o que contribuiu ainda mais para nosso isolamento físico do resto do Aquiry e, claro, da terra brasilis, já que o acesso terrestre entre a capital do Estado, no Seringal Empresa e a prelazia do Juruá, onde estou, regrediu aos saudosos anos oitenta, quando a rodovia federal, a infame BR 364, nada mais era que um grande varadouro que cortava o Estado de uma ponta da ‘asinha’ a outra. Mas este isolamento tem lá suas vantagens, pois nos mantém relativamente seguros e com acesso à paz característica das cidades interioranas.

Apesar dos ventos turbulentos do Planalto Central,  que teimam em atazanar nossa já atribulada existência profissional, econômica e política, a semana passou relativamente calma. Claro que me refiro ao mundo do “aqui onde estão meus pés”, e não o ‘mundo’ que temos acesso pelas redes de comunicação. Estes, continuavam o cabo-de-guerra e as arengas de sempre, um pouco mais exaltadas que o normal mas, dentro da normalidade caótica de sempre.

Dentro dos afazeres diários, nesse meu indigenismo de cada dia, atendi a uma pesquisadora que veio trocar umas ideias comigo a respeito de sua proposta de pesquisa de mestrado. Na conversa, esta me contou sobre um programa que tinha assistido, sobre um museu onde tinham vários objetos e demais acessórios indígenas. No programa, a curadora do museu explicava como ‘eram’ os índios, e como hoje em dia muitos deles “deixaram a cultura, não usam mais aquelas vestimentas de antes, os objetos, isso é meio triste…”.
Interrompi a narração da colega com a pergunta: “E o que tem de estranho nisso?”

sexta-feira, 12 de maio de 2017

UM CAMINHAR INDIGENISTA..

Tembé - Foto: Site Combate ao Racismo Ambiental
Por: Johny Fernandes Giffoni

Primeiro dia de trabalho, o ano era 2011, tinha 30 anos, havia acabado de assumir o cargo de Defensor Público do Estado do Pará, havia sido lotado na Comarca de Ourilândia do Norte, Sul do Pará, terra habitada pelos Indígenas da Etnia Kayapó e Xikrin.

Quando da minha lotação, não tinha ideia dos desafios e conflitos que iria vivenciar, logo ao chegar à cidade, no primeiro dia de trabalho, ao sair do hotel rumo ao Fórum avistei alguns indígenas na frente do Hospital da Cidade.

Na Universidade de Direito, apreendemos durante dez minutos que as matérias envolvendo indígenas são de competência da Justiça Federal, contudo a primeira impressão que tive em Ourilândia do Norte me trouxe indagações as quais contrariavam aqueles sólidos ensinamentos de dez minutos. Apreendemos também durante toda nossa vida, desde os tempos de escola que os indígenas ao vestirem roupa, falarem Português, utilizarem celulares, deixarem seus “habitats” naturais, bem como abandonarem seus rituais, costumes e tradições, se integrando à “civilização” branca, estariam aculturados não sendo mais indígenas.

Muitas classificações sobre o “tom de pele” foram criadas, não lembro com detalhes, mas em minhas andanças pelo Estado do Pará, ainda ouço algumas delas, tais como Crioulos, caboclo, mameluco, caiçara, mestiço, todas elas dotadas de preconceito e caráter de inferioridade genética, para segregar aqueles indivíduos não pertencentes à elite branca e aristocrática de nosso País, e justificar opressões e supressões de direitos aos povos originários de nosso País.