segunda-feira, 17 de abril de 2017

SOBRE POSTAGENS, APONTAMENTOS E MENTE ABERTA...


Por: Jairo Lima


“É preciso ter a mente aberta, mas não a ponto de que o cérebro caia”...

Esta frase martelava em minha mente enquanto pensava nas notícias recebidas via mensagens ou lidas despreocupadamente na tal da timeline de minha vida social virtual.

Ia lendo coisas, vendo toda a movimentação para o evento “Acampamento Terra Livre”, a ser realizado este mês que, segundo alguns mais antenados no esoterismo das coisas, vem de Aprus, o nome etrusco de Vénus, deusa do amor e da paixão.
Apertando a setinha de rolamento de página vou vendo manifestações de apoio a algum movimento feminista; Manifestações políticas raivosas ou sarcásticas sobre a atual conjuntura do circo político que estamos vivendo; Vejo algumas divulgações de retiros e rituais sagrados, onde as “doações” variam de acordo com a “chiqueza” do espaço a ser utilizado. Um pouco enfadado vejo algumas manifestações de apoio ao retorno da ditadura (!)... vindas de pessoas que não tinham nem nascido, quando este funesto e ridículo sistema político deixou de existir. Não posso deixar de pensar que, certamente, o máximo de leitura que estas criaturas devem ter são de postagens de jornalecos que mais parecem tabloides.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

KUSANATY: O MUNDO XAMÃNICO APURINÃ - Parte II

Autora: Moara Brasil
Por: Francisco Apurinã
Para acessar a parte I clique aqui


Ritual do Kyynyry
O Kyynyry ou Xinagné é o principal ritual do povo Apurinã. Reúne moradores de várias aldeias para, juntos, festejarem a passagem do espírito de quem faleceu; é também a ocasião de refazer as alianças entre pessoas, aldeias e grupos inimigos. Os Apurinã ainda mantêm viva a tradição desse rito e, durante os dias de festas, os participantes se enfeitam com as cores da floresta, expressa em suas pinturas corporais e nos mais variados adornos e indumentárias. Os grafismos são traçados com a tinta do urucu e jenipapo, traduzidos nas malhas da hãkyty (onça pintada), do xutuiu (jabuti) e da kiãty (cobra jiboia). Esta última é mais indicada para as mulheres e as demais para os homens. Entre os muitos significados, tais pinturas indicam o grupo clânico ao qual a pessoa pertence, o que ela pode ou não comer e com quem pode casar-se.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A MÁQUINA E A REVOLTA*: a academia, os indígenas e os paradoxos de um acesso não muito acessível



Por: Raial Orotu Puri

Nesta última semana que passou, acompanhei dois eventos realizados na capital Rio Branco que trataram de assuntos de importância para os povos originários, ao mesmo tempo em que acompanhava de longe algumas outras tantas coisas e situações da luta e da lida diária que fazem parte do Ser indígena. Pensei, a princípio em escrever especificamente sobre isso, ainda em certa correlação com o que escrevi na semana passada sobre abril, este mês e os muitos eventos em que se celebra a ancestralidade indígena de um país que na maior parte do tempo opta por ignorar e silenciar suas raízes.

A motivação central do meu texto era um colossal incômodo gerado por uma das falas ocorridas no I Seminário sobre Saúde Indígena promovido pelo Conselho Federal de Medicina no dia 06 de abril, e que contou com algumas palestras e falas bastante interessantes, mas que também contou com o seu quinhão de surrealismo, bem como com a curiosa e gritante ausência de participação de pelo menos um dos quatro médicos indígenas pertencentes aos povos Yawanawa e Huni Kui, formados em Cuba, e que atuam  aqui no Acre, em Manaus e no Pará. (Como diz aquela máxima para lá de conhecida “representatividade importa!”).

A única presença indígena como palestrante na temática do evento foi de Ninawa Huni Kui, acadêmico do primeiro ano de medicina da Universidade Amazônica de Pando – UAP, Bolívia, que apresentou uma retrospectiva histórica acerca da criação do subsistema de saúde indígena, também apresentou a experiência específica e estrutura do DSEI Alto Purus. Aos demais indígenas presentes, inclusive a médica Maria Gilda Yawanawa, que atende na Unidade de Pronto Atendimento – UPA da Cidade do Povo em Rio Branco, coube apenas a plateia.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

É POSSÍVEL PERDER-SE NO CAMINHO DO SAGRADO?

Autor: Ibã Sales Huni Kuin
Por: Jairo Lima


Certo dia, eu estava no escritório quando a secretária anunciou que uma senhora gostaria de falar comigo. Perguntei o assunto, mas ela não soube me informar, então pedi que a trouxesse à sala que eu atenderia. Nisso, entrou uma jovem senhora, não mais que seus quarenta anos, bem arrumada, perfumada e com um ar de dignidade que não conseguia disfarçar certo nervosismo ou urgência no assunto que gostaria de tratar comigo.

Após as saudações cordiais de praxe, coloquei-me à sua disposição para que pudesse atendê-la da melhor maneira possível, dependendo do assunto que fosse tratar, caso estivesse em minha alçada e conhecimento.

Olhando furtivamente para o lado, a senhora inclinou-se em minha direção e, num quase sussurro disse que tinha um assunto muito sério a denunciar, pois era algo de extrema urgência e importância.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

OS GUARDIÕES DA FLORESTA

Jovem Ashaninka
Por: Maria Fernanda Ribeiro


Ao chegar em Cruzeiro do Sul, no Acre, demorei um dia para sair do hotel. Fiquei prostrada na cama com uma angústia travestida de medo que me paralisou até os ossos. Não era medo da violência. Não era medo por ser uma mulher viajando sozinha pela Amazônia. Era um terror de que ao andar pelas ladeiras de uma das cidades mais a Oeste do país eu constatasse que a decisão de largar minha vida em São Paulo para conhecer e compartilhar as histórias dos povos da floresta havia sido um equívoco. E dos bravos.


A jornada, que só tinha passagem de ida, começou em julho de 2016 e a decisão veio após uma rápida viagem de férias pelo Pará e o rio Tapajós, com comunidades ribeirinhas, e a certeza de que eu era uma ignorante completa – no sentido genuíno da palavra – do Brasil e do povo brasileiro.


Ao navegar pela água cristalina do Tapajós percebi que eu era mais uma das pessoas do Sul e Sudeste do país que ignorava completamente a existência da Amazônia e enxergava o país de acordo com o meu conceito e concepção de realidade, que naquele momento resumia-se a um apartamento a um quarteirão da Avenida Paulista, a um emprego bem remunerado e a malfadada zona de conforto, que pode nos paralisar como num estado de coma. Induzido.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O MÊS, O DIA E O TODO DIA DE ÍNDIO

Por: Raial Orotu Puri

Eis que chegou o mês de abril, um mês que exige de quem tem sangue indígena um certo grau de estoicismo para dar conta do recado de ‘levar numa boa’ o conjunto irônico que ele compõe. e com ele virão, como sempre, as menções à cultura indígena, em face do controverso “Dia do índio”, 19 de abril. Um só dia, enquanto que antes, como diz Babi ‘todo dia era dia de índio’. Controverso, porque nesse dia do calendário específico aparentemente o Brasil que, durante 364 dias prefere negar a sua raiz, se vê subitamente inundado por uma onda de ‘homenagens’ nem sempre bem elaboradas aos povos originários.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

SOBRE BUSCAS, ILUMINAÇÃO E CURA...

Foto: Arison Jardim, SECOM-AC
Por: Jairo Lima

(...)*
“O Sol que brilha na colina espalha seus raios de amor
È o maestro da sinfonia que transforma Luz em Cor
São as cores da realeza, onipresença do criador
Seu pincel fez a natureza, sagrado quadro de esplendor
Conhecendo esta pintura e sua beleza que nos desperta
Eu encontro a minha cura na formosura da floresta”


Esse trecho da canção do Chandra me veio à mente enquanto revisava o Capítulo VIII de um dos meus diários, no qual venho trabalhando preguiçosamente, com fins de disponibilizá-lo para uma publicação futura.

Neste capítulo, eu, com meus vinte e sete anos peregrinava pelos Andes na Bolívia e Peru, menos a trabalho (pois era o motivo oficial desta viagem) e mais por estar em busca de “algo”, que eu não sabia direito o que era de início mas que, ao longo desta jornada, acabou por se mostrar perfeitamente claro: eu estava em busca de uma “cura”, e essa cura nada mais era que a busca por mim mesmo. Eterna questão que assombra o Homem desde os primórdios de sua iluminação mental, quando nos demos conta do “eu”.