quarta-feira, 3 de maio de 2017

ATAQUE AO POVO GAMELA: Quem dera o Brasil fosse apenas uma história de violenta ficção

"Mirada" - Autora: Raial Orotu Puri
Por: Raial Orotu Puri


Terminei de ler nesse final de semana o quinto volume do livro de fantasia “Uma canção de Gelo e Fogo”, ou, como mais conhecida no Brasil “As Crônicas do Gelo e do Fogo” o que me conduz ao posto de mais uma dentre os muitos expectantes (im)pacientes pela morosidade de produção do autor em lançar a próxima continuação de um imprevisto rol de livros até a conclusão da história. Esses livros, que eu utilizei como um pequeno alívio prazeroso no meu cotidiano nem sempre tão agradável, concentram algumas verdades, talvez óbvias, mas nem por isso desnecessárias: ao contrário do que acontecem em obras de outros autores célebres da fantasia – como a minha divindade maior, Tolkien – apesar de ser construído em um ambiente onde criaturas fantásticas tais como dragões e mortos-vivos existem e tornam arriscada a vida dos humanos, a verdadeira monstruosidade, barbárie e selvageria retratada na história está posta no lado homo sapiens da força.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

RODA DE CONSELHOS COM OS YAWANAWÁ: objetivo na vida e a busca pelo equilíbrio de viver...

Professor Nani Yawanawá - Foto: Acervo Tashka Yawanawá
Por: Jairo Lima


Nesta semana que passou recebi a visita de lideranças Yawanawá, mais precisamente, do Conselho Yawanawá, composto por homens e mulheres, representantes de boa parte das aldeias da Terra Indígena Rio Gregório.

A pauta da visita seria discutirmos o Plano de Vida Yawanawa, projeto comunitário que estipula uma série de ações para o alcance pleno da autonomia e reforço cultural deste povo. E este assunto foi realmente abordado.

Claro que muitos dos membros deste conselho são velhos conhecidos meus. Assim, não me surpreendi quando, entrelaçada à questão do projeto de vida deste povo, a conversa girou em torno de minha pessoa, da maneira mais tradicional da conhecida “roda de conversa” no terreiro da aldeia, onde assuntos diversos são tratados e que, quando estes referem-se a alguém particular, assumem uma conotação mais íntima e aborda-se o assunto sempre de maneira séria, mas amorosa, onde a mensagem seja dada sem que isso venha a gerar conflitos ou má interpretações. Outra característica interessante é que, nestas falas o uso da terceira pessoa ao se referir ao aconselhado é uma ferramenta usualmente utilizada.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

UMA TRAVESSIA PELOS TERREIROS DO POVO JAPÓ: Ashaninka do Rio Amônia

Por: Dedê Maia

Por instantes fiquei matutando como descrever essa travessia pelos terreiros do povo do Japó, famílias Ashaninka do rio Amônia, Município de Marechal Thaumaturgo, casa do meu amigo Benki Piyãnko, local onde está sendo construído o Centro de Cura Yorenka Tasore (saberes da criação), coordenado pelo nosso anfitrião, e que tem como base os seus conhecimentos ancestrais no uso das medicinas tradicionais e tratamento na “recuperação das energias que as doenças e muitos remédios químicos consomem dos seres humanos” (Benki Piyãnko)
“... As plantas... as nossas medicinas têm espírito e são esses espíritos que vão nos curar... Dar-nos a energia necessária para estabelecer a cura do corpo e do espírito... Mas é preciso acreditar... E concentrar nos curadores que estão em nossas ervas medicinais... Nossa Ayhauaska... Nosso kamarãpy... Essa é a nossa ciência... Nossa intenção também é trabalhar junto com a ciência dos brancos... Com médicos... Fisioterapeutas... Terapeutas, que estão dispostos a realizar esse intercâmbio com a gente para atender não só nossa comunidade Ashaninka, como também a comunidade do entorno que vêm buscar tratamento com a gente... Esse é o nosso projeto... Construir no Centro de Cura Yorenka Tasore o nosso hospital para atender a quem nos procurar...” (parte de uma palestra onde anotei pontos importantes da fala de Benki Piyãnko).

quarta-feira, 26 de abril de 2017

SOBRE A NECESSIDADE DE SEMPRE REPRESENTAR OS SOBREVIVENTES. E SOBREVIVER A ISSO.

Por: Raial Orotu Puri


Faz já algum tempo que tenho uma preocupação recorrente acerca da necessidade, que cada vez se coloca de forma mais essencial, dos indígenas estarem também participando do mundo dos brancos. E isso, não necessariamente para confraternizar – quase nunca para isso – mas para tentar apreender certas ferramentas, para estar atento a ameaças e para encontrar escuta, para reivindicar direitos, para fazer-se ouvir e ser sentinela. Não que isso seja necessariamente agradável – quase nunca é – ou a melhor maneira de empregar seu tempo, quando a opção pode ser uma vida numa aldeia, e a eternidade das coisas que não mudam, das notícias que chegam tarde, do tempo que escoa a conta gotas.

Sempre tive a impressão de que, numa aldeia distante o suficiente da ‘civilização’, quando o mundo acabar a notícia vai chegar uns 03 meses depois do acontecido. Se chegar. E isso é ótimo!! O grande problema é que, cada vez mais, essa ‘distância suficiente’ diminui, e as tentativas de aniquilação do mundo indígena também se tornam cada vez mais próximas e cotidianas. E, ao que tudo nos indica, não é estrategicamente viável deixar de vigiar as ameaças sempre crescentes, e os ataques cada vez mais descarados que o mundo do raion vem perpetrando contra os povos originários. Por essas e outras coisas, a necessidade de que indígenas estejam ‘representando’ seu povo em meio não-indígena acaba sendo uma constante, para o bem ou para o mal.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

MUNDO DOS SONHOS: sagrado indígena e a busca para "sair da caverna”...

Por: Jairo Lima


A luz da lua penetrou na pequena casa onde eu estava. De minha rede eu via sua fria luz pela porta e brechas na parede de paxiúba. A luz iluminava, também, duas outras redes estendidas, onde seus ocupantes, a uma primeira olhada, pareciam estátuas de fino mármore, reluzindo placidamente a luz que parcialmente os atingia. Não sem um pouco de esforço eu conseguia visualizá-los, pois, o fato de tentar manter os olhos abertos despendia uma grande concentração de minha parte. Duas pequenas figuras se destacavam na semi-luz do ambiente, sentados firmes diante uma pequena lamparina a querosene que teimava em rivalizar com a luz fria que penetrava o ambiente.

Uma voz que parecia estar em todo canto, sem realmente ser percebida em sua origem, entoava um cântico cadenciado, simétrico e firme, como se estivesse dando ordens a algo intangível. Tudo parecia tão longe e, ao mesmo tempo, tão perto.
Vez ou outra percebia outros sons que penetravam abruptamente o ambiente. Estes vinham de pássaros e outros entes noturnos que se cercavam do ambiente. Eu podia jurar que conseguia até ouvir o borbulhar lento, produzido pela água corrente do pequeno rio que passava logo adiante da casa.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

DIREITO, O APRENDIZ, ELAS/ES, AS/OS MESTRAS/ES: À procura de uma escuta qualificada

Jovem Yawanawá - Foto: Sergio Vale
Por: Claudia Aguirre


Eu, a aprendiz, elas/es, as/os mestras/es

No último dia 3 de abril, tive a honra de representar a Defensoria Pública do Estado do Acre no primeiro dia das atividades do Seminário “Subsídios para a criação das categorias ‘escola indígena’ e ‘professor indígena’, e outros marcos para a gestão intercultural da EEI no Acre”, promovido pela Secretaria de Educação do Estado do Acre e a Comissão Pró-Índio do Acre, com o apoio da UNICEF.

Na ocasião, as falas das professoras e professores indígenas presentes espelhavam visões de mundo muito profundas, vivas, demonstrando uma autoconsciência cultural e uma disposição ao diálogo de dar inveja a muito cara-pálida. Dentre as falas, uma me pareceu muito paradigmática da lição que eu, a aprendiz - a defensora pública tinha saído para dar uma volta - tinha que aprender ali.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

SOBRE MINHA AVÓ, EU MESMA E O ORGULHO DE SER PURI NESTE 19 DE ABRIL

Anita Malfatti
Por: Raial Orotu Puri


Ser Puri
É mais ou menos isso:
Verde que busque o daquela pitaya.
Adaptada e feliz em Ser.
Ou quase...
E quando penso em ser Puri
Quanto estou entre outros de mim
Sinto pulsar a nossa valentia
Penso em meu pai...
Em sua história de sobrinho de alfaiate e filho daquela índia...
Minha avó!
Eu mesma!
Nos perdemos de nós
E aí está a nossa covardia
Em se deixar perder
...essa coragem que tudo o que se sabe folha tem.
A mim não ofende ser chamada covarde!
Porque não me ofende ser.
Quem sabe de sua coragem sabe de seus limites
Que possamos estar juntos para nos saber melhor e mais fortes do que pensávamos.
Somos!
(Poema de Tuschahi Puri)



Às vezes algumas coincidências chegam a ser irritantemente boas. Uma dessas é o fato de ‘meu dia de escrever’, a quarta-feira, caia justamente no dia 19 de abril. (Outra é que hoje é aniversário da grande divindade perspectivista da antropologia brasileira, Eduardo Viveiros de Castro – a quem desejo meus sinceros parabéns, a propósito). Vai daí, que escrever nesse dia, estando sempre dizendo e redizendo o quanto esta data de calendário diz muito pouco, e representa muito pouco, para quem tem de lutar pra ser todo dia, e todo dia precisa provar que ainda existe, é realmente uma ironia impagável, dessas que merecem que a gente escreva um texto a respeito. Pois bem, eis o texto.