Por: Jairo Lima
“Boa noite… onde V.Excelência estará, entre os dias 10 e 13 de outubro?” - Perguntei
“Onde V.Excelência quiser…” - Foi a resposta.
Diálogo curto, à noite, mas cheio de significados, que tive num primeiro contato em meses com meu amigo Domingos Bueno, através de uma pequena mensagem via zap zap. Nessa mesma noite enviei mais umas quatro mensagens curtas e diretas, com a mesma essência, a algumas pessoas específicas, como a amiga Maíra Dias - que ficou muito emocionada -, rompendo, assim, mais um pequeno exílio a que me impus nos últimos meses, onde, além de não escrever nada - principalmente depois de tudo o que ocorreu após meu texto sobre o kambô - também ‘sumi’ de boa parte da minha já diminuta vida social.
Por: Jairo Lima
Puke Shaya veio nos visitar hoje trazendo notícias de sua aldeia (Shane Kaya), sobre uma oficina de pintura que estão fazendo com a artista argentina Delfna Muñoz, que já vem há alguns anos trabalhando com os Huni Kuin, os Yawanawá e, mais recentemente, com os Shanenawa. É sempre bom quando pessoas positivas vem contribuir com as comunidades.
Vou me inteirando das ‘conversas’ do mundo indígena enquanto passo a vista nas notícias do dia vendo os horrores dos atentados internacionais, as tragédias nacionais e os dramas pessoais de nossa sociedade. Vejo que fui marcado numa postagem recente sobre mais uma morte ocorrida no Chile, envolvendo o uso do kambô. Somando-se a essa tivemos, na semana anterior, outra morte, desta vez na terra da rainha Elizabeth. Creio que, com estes dois sinistros recentes já contabilizam-se oito mortes - conhecidas - nos últimos seis meses.
O que dizer sobre isso? Não sei mais o que escrever que não ‘chova no molhado’ no assunto mas, vamos lá, seguimos.
Certo dia vi em algum comentário que o ‘problema está na aldeia’. Discordo. O problema está nas pessoas, não na aldeia. Claro que tem indígenas vendendo as ‘palhetas’ de kambô, principalmente para atravessadores, alguns destes que não tem discrição alguma de ofertar seu ‘produto’ nas redes sociais, de maneira aberta, mesmo sendo essa prática considerada crime, de acordo com a Portaria da Anvisa de 2004.
Por: Raial Orotu Puri
Nos últimos tempos eu estive às voltas com a minha qualificação do Doutorado, rito esse que finalmente foi ultrapassado no último dia 08/02. E o finalmente é aqui colocado em face de todo um percurso pelo qual passei desde que cheguei ao Acre, e que dentre outras coisas envolveu padecimentos físicos, um quadro depressivo, e a necessidade de trabalhar enquanto pesquisava e escrevia, por motivos de: eu não nasci rica e preciso pagar as contas... (Afinal de contas pós-graduação no modo roots não é na base do versículo bíblico!).
Em face de tais circunstâncias, é natural que eu tenha andado meio de fora do circuito de debates da internet, embora, uma vez ou outra eu dê uma olhada no que se conversa, ou seja chamada à parte para discutir uma ou outra coisa. Foi assim que esses dias uma amiga pediu ajuda para embasar uma discussão que ela estava travando com um colega, baseada em uma reportagem. Eu já tinha visto a matéria em questão, e mandado-a para o limbo das coisas que nem me dou ao trabalho de comentar, de tão toscas que são. Porém, em consideração ao pedido da minha amiga, tirei a coisa do limbo, reli criticamente e encaminhei para ela algumas reflexões do que eu pensava sobre o assunto e acreditei que a coisa acabava por aí.
Por: Jairo Lima
Findou o carnaval, pelo menos é o que parece já que hoje em dia não se sabe ao certo quando ele começa e quando termina.
Sento para escrever minha crônica do mês. Fico matutando se ainda tenho algum assunto para compartilhar com meus poucos leitores. Decido ir ouvir música indígena enquanto navego pelas mídias para me alienar e me informar e, nesse processo alienante vejo no ‘feicebuqui’ que o ator Fábio Assunção esteve por estas bandas, aqui no Acre Indígena, mais precisamente na aldeia Morada Nova, povo Shanenawa, município de Feijó. Ele veio em busca de cura para suas mazelas materiais e espirituais através da força das medicinas indígenas, capitaneadas, claro, pelo ‘Uni’ (Ayahuasca).
Vi as várias postagens sobre essa visita, já que estive ‘fora do ar’ durante todo o piseiro carnavalesco e, nas redes sociais em comum com os parentes Shanenawa vi o sujeito ‘antes’ e ‘depois’ da visita, nas diversas fotos compartilhadas. Bem, a meu ver, excetuando-se a cara de quem não dormiu nada (e isso deve ser comum para ele) o figura parecia bem, até se comprometeu a voltar em setembro.
Por Raial Orotu Puri
Eu tenho estado silenciosa há um bom tempo. Não é que não aconteceram coisas neste período. Aconteceram. Até demais... E, no entanto... No entanto, às vezes, a tristeza, ou a raiva, ou revolta, ou todas essas coisas, recaem sobre nós de forma tão pesada que fica difícil encontrar palavras que possam ser encadeadas em frases e que permitam dar sentido ao que sentimos.
... Ocorre também que o silêncio, depois de certo tempo passa a ser um lugar confortável, depois que nos acostumamos com ele. E há ainda a sensação de inutilidade das palavras. Ou de fadiga por ver que o esforço de usá-las foi inócuo. E há também a opinião dos nobilíssimos Guarani, que dizem que o ‘silêncio é o som dos sons’. E é...
Mas... “Você está em dívida com o Blog”, foi a intimação que eu não posso recusar jamais, vinda de meu amigo Samman Poteh..., ele disse. Ele tem razão. Eu sei. E se existe alguém que pode me mover do silêncio, sem dúvida, é ele, que começou esta história de escritas. Pois bem... Tentarei então dizer de tudo quanto houve, a ínfima parte que couber em minhas linhas.
E o que tanto aconteceu?
Por: Domingos Bueno
Em um tempo distante alguns poucos humanos tornaram-se mediadores entre realidades transcendentes que aprenderam a acessar, sinalizando dicotomias expressas em noções de indivíduo e coletividade, sagrado (sobre humano, que deve ser restrito à poucos e protegido) e o profano (humano, trivial), permitido ou não permitido, communitas e societas, natureza e cultura.
Cumprimentando aos leitores deste blog, peço licença ao Jairo para, finalmente, trazer um pequeno registro sobre o que foi, pra mim, a II Conferência Indígena da Ayahuasca (ocorrida em agosto de 2018). Se passaram só alguns meses, mas nesses tempos relativos já parece muito… Me animo a compartilhar agora esse texto, buscando na força da memória daqueles dias inspiração e esperança para ler as notícias sobre povos indígenas e a Funai que temos visto agora. Que a força da floresta, da bebida ancestral e a sensatez desses povos que já assistiram e resistiram tantas vezes aos absurdos impostos pela sociedade não-indígena, possam mais uma vez nos ensinar.