segunda-feira, 19 de setembro de 2016

NAWA XARABU BU HUNËA*: Invisibilidade ou indiferença?

Crianças Huni Kuin - Foto: Talita Oliveira**
Na semana que passou li duas noticias que me causaram diferentes sentimentos. Notícias estas que, em comum, tinham os mesmos temas: morte e visibilidade midiática.

Obviamente que uma delas o leitor vai deduzir se tratar do afogamento do ator Domingos Montagner.

A outra, poucos ou praticamente nenhum dos leitores poderia deduzir. Trata-se da divulgação do relatório “Violência contra os Povos Indígenas do Brasil”, que nos trouxe dados que mostram haverem ocorridas 891 mortes violentas de indígenas no Brasil entre 2003 e 2015.

Como escrevi acima, estas notícias percebidas por mim trouxeram emoções distintas.

A primeira vi rapidamente e com indiferença, pelo fato de que eu não fazia ideia de quem seria este ator que morreu, ou sequer que existia um ator com este nome. Não sabia de que trupe ou canal o mesmo pertencia, pois tomei conhecimento de sua morte pelo facebook, através das postagens com carinhas tristes e lágrimas escorrendo. Geralmente "passo direto" quando vejo estes emoticons. Assim, na hora dei de ombros, pois outro sentimento logo me tomou de assalto ao ler a matéria seguinte, do site Amazônia Real sobre o relatório que trazia os dados e contextos das mortes dos indígenas.

Li a matéria, passei os olhos nas informações do relatório, e fiquei triste, pois me lembrei do nome de alguns destes mortos. Lembrei-me de seus rostos. Lembrei-me da profissão de alguns deles. Lembrei-me, ainda, de alguns momentos descontraídos e divertidos que tive junto com alguns deles. Pensei e até escrevi um comentário quando compartilhei o texto na minha timeline: infelizmente, estes são os “invisíveis” e as suas mortes não causam tanta consternação quanto a de outros. Respeito o luto nacional por suas figuras púbicas, mas me dói muito pelo desconhecimento e a falta de reconhecimento nacional deste genocídio que vem ocorrendo com nossos povos originários, os verdadeiros donos desta terra...

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

ELEIÇÕES 2016: Sobre proselitismo político e os povos indígenas...

Os ânimos se acirraram aqui no Aquiry, principalmente no Yuraiá (rio Jordão), quando as Terras Indígenas Huni Kuin localizadas na região decidiram não permitir a entrada de candidatos não-índios em suas aldeias, além de manchetes nos jornais locais, também causou desagrado em um bom número de postulantes às cadeiras legislativas e executivas municipal. Teve até quem dissesse ser esta atitude contra a lei por supostamente coibir o direito de condições iguais para os candidatos (clique aqui).

É bom citar que no Amapá, numa situação idêntica, o Ministério Público Federal considerou válida a decisão do povo Wayãpi de não receber candidatos em suas aldeias (clique aqui).
Acho interessante quando leio algumas manifestações contra a decisão dos indígenas e vejo a utilização do substantivo “crime”, tão em moda no Brasil contemporâneo.

Trocando em miúdos: os indígenas são criminosos por não aceitarem a visita obrigatória de pessoas que nada tem a oferecer, além de promessas vazias e muitas vezes ininteligíveis para a maioria das aldeias? 

Não posso dizer que me impressiono com tal substantivo atrelado à palavra “indígena”, afinal, na visão geral de grande parte da sociedade nacional é esta a visão que se tem sobre os povos indígenas.

domingo, 4 de setembro de 2016

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

PITSITSIROYTE: Povo Ashaninka e a musicalidade que veio de Pawa

Um dos objetivos deste blog é a divulgação do que chamo de “mundo indígena e indigenista”. Assim, vez ou outra, também estarei divulgando pesquisas, livros e outros materiais que vejo serem importantes. Dar publicidade a estes, em minha opinião, é essencial para fortalecer cada vez mais esta “teia cultural” que une não só os povos indígenas como, também, indigenistas e demais interessados.

Assim, o assunto hoje é a pesquisa sobre a musicalidade do povo Ashaninka*, realizado como Trabalho de Conclusão de Curso pelo professor, músico e cineasta Wewyto Ashaninka, da aldeia Apiwtxa, Terra Indígena Kampa do Amônia, município de Marechal Thaumaturgo.

Como músico, sempre achei muito rica a música e os instrumentos utilizados pelos Ashaninka e por isso, este tema sempre me chamou muito a atenção quando os visitava e, em 2003, tive a oportunidade de produzir e participar da gravação do primeiro CD do Benky Ashaninka.

Também foram os Ashaninka do Amônia os primeiros, no Acre, a lançarem um CD de músicas tradicionais, o Homãpani Ashënïka, em 2000.


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

SAGRADO INDÍGENA: Interações e desafios no mundo dos Yura...

Foto: House of Indians
As águas voltaram a fluir como lágrimas nos céus do Juruá trazendo o refrigério desejado e a proteção das águas contra o fogo, tal qual uma quimera insaciável que vinha destruindo nossas florestas.

No Aquiry, precisamente no meu querido Seringal Empresa (Rio Branco), a malevolência descabida da bandidagem, que cresceu à sombra da displicência estatal, queimou o acervo histórico de nossa capital. Acervo este abandonado à sorte, sem cópias de segurança guardadas em outro local, como se a memória dos dias que se passaram não merecessem atenção dos que comandam as penas do poder.

No “mundo indígena” tivemos uma semana de desencontros e muita arenga ocasionada por um evento que irá ocorrer na capital. É a tal da “Conferência Mundial da Ayahuaska”, onde os “doutores que entendem de tudo” resolveram trazer para a terra de Juramidam e dos Povos Indígenas um evento excludente e caríssimo, que deixa de fora aqueles que não têm “contatos” e recursos financeiros para participar.
Para mim, isso é o cúmulo da arrogância casada com cinismo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

CHARLATANISMO: quando os raion se apoderam da identidade indígena

Tem certas coisas que acreditava não se repetirem, depois de crer ter superado os “dias de luta”, pelo menos, aqui no Aquiry. 
Pois, não é que me enganei?

A semana que passou foi uma verdadeira miscelânea de fatos e emoções.

Começou de forma promissora, com o início de uma oficina muito importante. Trata-se do “Encontro de Parteiras Tradicionais Indígenas do Município de Jordão”, que, reunindo as queridas Huni Kuin aïbu (mulheres Kaxinawá), procura fortalecer e fomentar este trabalho.

Mas não terminou muito bem, pois, tive um revival de sentimentos e reações quando, ao atender uma ocorrência de interferência de certa denominação religiosa no pleito eleitoral deste ano, dentro das terras indígenas, fui ameaçado através de uma ligação anônima. Foi interessante, pois pude reviver certos momentos de minha vida, no passado, em que isto não seria tão anormal.

Mais interessante foi descobrir que minha reação hoje em dia continua a mesma de anos anteriores: desprezo. Claro que surge uma vontadezinha de chutar algumas “rabetas” ungidas pelo Senhor, mandando-as para o quinto das paragens ardentes do tártaro.

Este confronto sinalizou a chegada daquela época fuleira, conhecida como “período eleitoral”, onde anjos viram demônios e demônios transmutam-se em seres celestiais, sedentos pelo maná que brotará de todas as fontes possíveis, caso sejam eleitos para um cantinho à sombra, no olimpo protegido e intocável dos cargos do legislativo e executivo.

Apesar da introdução o assunto da semana é outro, como se iniciássemos a subida por um rio e em seguida entrássemos noutro.

Trata-se dos casos de “falsos índios”, ou seja, dos nawa que, por diversos interesses, assumem uma identidade indígena, ou melhor, roubam uma identidade indígena.


segunda-feira, 8 de agosto de 2016

"SANITARIZAÇÃO" DA CULTURA INDÍGENA: Mais um conflito silencioso...

Jovens Yawanawa - Foto: Governo do Acre
O Acre de Juramidam e Chico Mendes está tórrido. O calor nos oprime sem trégua enquanto vemos, no horizonte, nuvens escuras que, ao invés da benfazeja chuva, são embaçamentos carregados de fumaça.

Ontem houve a abertura da Olimpíada no Rio de Janeiro. Passei batido, mais por desinteresse do que posição ideológica ou política. Assim, como já tinha indicado nas redes sociais, dediquei-me a regalos que, para mim, são bem mais afins e agradáveis.

Nesta semana que passou o disco Revolver dos Beatles completou seu quinquagésimo aniversário. Essa data me lembrou da viagem que fiz aos Yawanawá em 2002. Explico: além do meu cachimbo, quando viajo, sempre levo algum aparelho que me faz companhia, embalando-me sonoramente em meu pequeno mundo. Assim, cada viagem sempre teve a sua trilha sonora e, entre estas, a viagem que fiz aos Yawanawá teve como trilha, basicamente, este disco.
Hoje em dia, graças à tecnologia do MP3, é fácil fazer isso, mas, em 2002, além do discman, era preciso levar os CDs e um bocado de pilha.

Fechando a semana também finalizei um parecer, a respeito do impacto da BR 364 sobre determinada terra indígena. Esta atividade me custou alguns meses de leitura e um exercício hercúleo de sistematização, onde imprensei as reflexões de mais de três mil páginas de leitura em cerca de vinte e cinco laudas.
Entre estas leituras que fiz, deparei-me com algumas reflexões interessantes, que me induziram a escrever mais uma vez sobre o que chamei em texto anterior de “conflito silencioso” entre práticas universais de saúde e as chamadas práticas tradicionais dos povos indígenas.