sexta-feira, 17 de novembro de 2017

“TU ÉS MARABÁ!”: Sobre estereótipos e algumas discussões contraproducentes que não levam a lugar nenhum – a não ser ladeira abaixo.

Por: Raial Orotu Puri

Marabá é um poema publicado em 1851 pelo poeta Gonçalves Dias (1823-1864), no livro Últimos Cantos. Escrito em plena época do Romantismo, o poema tem um viés claramente nacionalista, aonde o indígena é exaltado como símbolo da brasilidade. A índia eu-lírico do poema é uma ‘marabá’, isto é, mestiça. Seu nome não é citado nos 54 versos, que, por outro lado, se dedicam a descrever sua aparência: através deles, descobre-se que ela tem cabelos cacheados, olhos verdes e tez branca. Tais características fazem com que a moça seja rejeitada, posto que ela não possui nenhum dos ideais de beleza que apreciados por seu povo.

Marabá é uma palavra do tupi-guarani que pode ser traduzida como inadequado, defeituoso, impróprio, diferente. É também uma palavra usada para reporta-se aos mestiços, filhos da mistura entre índios e brancos, razão pela qual são considerados imperfeitos ou impuros, desde a perspectiva da cultura indígena.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU - parte 4

Altar de Santa Maria da Liberdade, capela em Feijó
Por: Txai Antônio Macêdo

Ainda na colocação Currimboque: Promessa feita, dádiva recebida e sacrifício pago

Num daqueles ‘dias de branco’ -  como costumavam dizer os seringueiros adultos - , sai para cortar minha estrada de seringa, São José ‘de cima’ (lembrem-se disso: toda estrada tem seu próprio nome) e no decorrer do trabalho, naquele dia, adquiri uma febre fortíssima.

Ocorre que eu havia passado por baixo de um pé de Palmari e não vi a árvore, e por isso, ganhei aquela famigerada febre. Para aumentar minha má sorte naquele dia caiu uma forte chuva, e eu ainda estava longe de casa. Tive que sobreviver toda aquela chuvarada com a febre que me atacava de forma quase intolerável. Cheguei na casa de meus pais usando uma ‘muleta’  improvisada, feita com pau de caneleiro, e sem querer deixei minha mãe muito assustada, especialmente, ao me ver andando apoiado nessa muleta.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

YUBAKA HAYRÁ: Iniciando o papo sobre a Conferência Indígena Ayahuasca...

Por: Jairo Lima

- “Você não vai escrever nada sobre o encontro Yubaka Hayrá?” - Ouvi e li esta pergunta uma quinze vezes nas duas últimas semanas.

Esse questionamento se deu mais por causa de minha posição, devidamente registrada e divulgada, quando da edição 2016 da Aya Conference. E não escondo que até hoje muitas ‘coisitas’ que rolaram neste evento ainda estão pairando no ar, e garanto a vocês que não são poucas.

Mas, ok… vamos lá, começar esse papo tão necessário...

Na semana que passou, onde os olhos materiais e as atenções continuaram, em sua maioria, focadas nas polêmicas políticas e sociais da Pindorama, eu estive às voltas com o corre-corre e demais detalhes da organização da 1a Conferência das Organizações Regionais Indígenas e da 1a Yubaka Hayrá (1a Conferência Indígena Ayahausca). Garanto que isso tomou-me o tempo, a atenção e, claro, o humor. Reuniões, ligações e o escambau a quatro misturaram-se à análise das fichas de inscrição de um bocado de gente interessadas em vir para o evento da ayahuasca.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

SOBRE OS PÁSSAROS E AS REDES SOCIAIS

Por: Raial Orotu Puri

Algumas semanas atrás li um artigo que tratava de comparar a cultura do canto dos pássaros com o fenômeno das redes sociais. O artigo foi para mim – que não entendo nada de ornitologia – um tanto hermético, mas apesar de tudo, muito esclarecedor. Achei o tema muito interessante, e tenho pensando em escrever algo sobre isso desde então. No entanto, sentia que não me encontrava preparada para fazê-lo, devido justamente ao fato de achar que não havia conseguido apreender em profundidade alguns dos conceitos utilizados pelo autor.
Hoje, no entanto, após ler outra matéria tratando de redes sociais, voltei a pensar no artigo sobre o canto dos pássaros, e me vejo compelida a falar deste tema...

Bem, o referido artigo sobre os pássaros dizia que, para além de atrair parceiros e demarcar territórios, as aves utilizam os seus cantos como forma de diálogo, e que a cultura dos cantos pode evoluir ao longo das gerações, através da introdução daquilo que o autor chama de ‘sílabas raras’, que, de início podem sofrer resistência por parte da comunidade da espécie, mas que com o passar do tempo podem ir sendo incorporadas à cultura geral.

O texto prossegue explicando alguns mecanismos pelos quais se faz possível que os cantos não entrem em colapso devido à inovação excessiva, nem acabem se tornando de tal forma uniformes que tornem impossível quaisquer introduções do novo. Esta é a analogia usada pelo autor para demonstrar certa semelhança entre as mudanças que a internet tem imprimido na cultura humana, e a necessidade da adoção de mecanismos que permitam que nenhum dos dois extremos nos ameace: nem o caos, nem a excessiva uniformidade.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU - parte 3

Por: Txai Antônio Macêdo
A vida na colocação Currinboque

Ali era louco, era inóspito, como se dizia lá: "Tudo no bruto há 18 anos".  

A colocação Currimboque, onde estávamos morando e trabalhando, fazia já dezoito anos que não era habitada por ninguém. Por isso, tudo ali já havia regenerado, mas foi preciso trabalharmos muito para edificar casa de morada, defumadores, galinheiros, cercado para jabutis, roçados e reabertura das estradas de seringa.

Nossa colocação distava cerca  de seis horas da sede do Barracão Colombo localizado na margem direita do Rio Muru. As colocações que se avizinhavam eram: Cius, com seis horas de viagem a pé já nas águas do igarapé Ciús, pertencente às águas do Rio Envira; Cocal com quatro horas de viagem a pé; Campos da Cruz, com duas horas de viagem a pé e; Paiol da Lama, com três horas de caminhada pela floresta.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

UM ‘CAUSO’ ENTRE OS YAWANAWÁ: o dia em que o velho Yawa me enfeitiçou...

Por: Jairo Lima

Fui convidado para um jantar na casa de um casal amigo, onde se reuniram o grupo que participou, por indicação minha, do XVI Festival Yawanawá, na aldeia Nova Esperança, Terra Indígena Rio Gregório.

Entre drinks e petiscos, os vozerios entrecortados por risos e pantomimas narravam as ‘aventuras’ vividas nos três dias de festividades que participaram. Mirações com o uni (ayahuasca), as brincadeiras, a caiçumada e outros detalhes da festa tomavam forma a cada momento em que eram citadas. Como não poderia ser diferente, o consenso geral foi de que a experiência vivida, já que para quase todos era a primeira vez que participavam, foi um marco em suas vidas.

Eu, na mesma emanação, entre as beberagens e petiscagens misturava-me ao assuntos, ao passo que minhas próprias lembranças rodopiavam em minha mente, algumas tomando a forma de palavras que, de certo modo, divertiram os demais presentes.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

EXPLORAÇÃO E RESISTÊNCIA: Povos indígenas no contexto das dinâmicas de fronteira Brasil - Peru

Por: Maria Luiza Pinedo Ôchoa

Dando continuidade aos trabalhos desenvolvidos pela Comissão Pró Índio do Acre e associações indígenas na região do Alto Juruá, foi realizada no período de 28 de setembro a 10 de outubro, a II oficina de atualização do Plano de Gestão Territorial e Ambiental da Terra Indígena Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu. A oficina permitiu discutir, refletir, atualizar informações e acordos que compõem o Plano, como também novas estratégias de proteção dos territórios e sustentabilidade dos recursos naturais, diante das diversas mudanças e desafios dos últimos anos que afetam os povos Huni Kuĩ e Ashaninka desta TI e comunidades que moram na Reserva Extrativista do Alto Juruá, na região de fronteira do Acre com o Peru.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU - parte 2

Por: Txai Antônio Macêdo

Meus tempos de criança eram tempos difíceis, mas, mesmo assim muito animado. Muitas coisas aconteciam...

Um grito na floresta
Eu já trabalhava ajudando a minha mãe nos roçados. Meu ofício era carregar água limpa das fontes, para minha mãe e minhas irmãs beberem quando se encontravam trabalhando nos roçados.
Junto com minha irmã Kon Kem, durante o verão, pescáva-mos camarão em meio aos paus dos igarapés e fazíamos comidas muito gostosas, mas, eu gostava mesmo era do camarão assado no espeto e na brasa do fogão. E nesses momentos passávamos sempre por muitas aventuras, como, certa vez, quando fomos ‘pastorear’ passarinhos do tipo graúna e chupão, que comiam todo arroz dos roçados.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

SAGRADO INDÍGENA: Não confunda respeito com adoração…

Por: Jairo Lima

Por que, em vez de respeitar e seguir os conselhos dos mestres passamos a dever-lhes culto, adoração e obediência? - Estive matutando sobre isso durante a semana, enquanto participava das discussões sobre a realização da I Conferência Indígena da Ayahuasca, a Yubaka Hayrá.

Uma coisa que aprendi nessa convivência de muitos anos com os povos indígenas foi entender  a profundidade da palavra ‘respeito’. Palavra esta extensível a muitas coisas, entre estas a busca espiritual.

Deve ser porque os tempos de minhas andanças mais constantes pelas aldeias no Aquiry foram em épocas em que não existia esse ‘booom’ xamânico de butique, de maneira que, para ter acesso aos ensinamentos profundos dos mistérios encantados do huni (ayahuasca) era preciso encarar muitos dias de viagens, suportando os infernais piuns e as agruras do inconstante e mal-humorado clima amazônico.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

UM ESCLARECIMENTO PARA ALGUNS RACISTAS: Somos muito mais do que apenas os ossos e o passado que vocês reverenciam


Por: Raial Orotu Puri
"Quando os acadêmicos vêm falar com a gente é só pra fazer pesquisa. Não nos veem como povo, como pessoas, somos apenas ossos.” -(Vherá Poty , 19/10/2016, Congresso da Sociedade de Arqueologia Brasileira - Regional Sul.)

Devido a algumas questões que vivenciei na semana que passou, fui levada a recordar de uma conversa havida meses atrás com uma arqueóloga estrangeira em visita ao Acre. No referido diálogo, ela me perguntou se eu já havia visitado um Geoglifo, e me falou sobre o quão importante é tal experiência, para, palavras delas “poder reconhecer a perícia e sabedoria das populações ameríndias que habitaram a Amazônia milhares de anos atrás”...

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU - parte 1


Por: Txai Antônio Macedo

Começa aqui, a partir deste texto, uma série de memórias que marcaram este personagem que vos escreve. Acompanhe as travessuras desse amigo de todos vocês através deste espaço de crônicas indigenistas...

O que penso da palavra saudade? Bem, meu tempo de criança às vezes me dá saudades... ás vezes não. Na minha concepção, saudade é palavra triste do ponto de vista da perda ou distância de alguma coisa infalível, ou uma maneira de lembrar com alegria, pessoas ou momentos vividos. Se assemelha a faca que corta nos dois gumes.

Abro essa conversa aqui falando de mim mesmo, e dos meus tempos vividos de infância nos seringais do Aquiry. Graças a Deus, não perdi um grande amor, nesta estrada longa da vida, e mesmo assim, vou chorando a minha dor, igual uma borboleta, vagando por sobre a flor.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

SOBRE LUTO, PENSAMENTOS, ESPINHOS E FLORES…

Por: Jairo Lima

Olhando para o cursor piscando na página em branco virtual a tela do meu computador fico pensando em várias coisas, enquanto a brisa fria alisa-me as sensações e me fazem querer voltar para a cama, deixando ‘tudo pra lá’.

Os fortes ventos e a fria chuva do inverno nos trouxe uma semana de tristeza e indignação no Aquiry indígena, trazendo dois fatos que, apesar de singulares, na essência, trazem um ponto comum de reflexão e nos remetem a pensamentos profundos sobre essa natureza social e cultural que separa os grupos humanos, destacando as virtudes de uns e ignomínia de outros.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

CRIANDO O ÓDIO E CULTIVANDO A INDIFERENÇA: algumas reflexões a mais sobre a falta de empatia para com as questões de vida e morte dos povos originários

Por: Raial Orotu Puri


O ódio não vem apenas do medo e da incompreensão do desconhecido e do diferente. Ao longo da história, o ódio também foi uma construção que serve a fins políticos. Construção tão bem feita que passamos a achar que aquilo plantado dentro de nós por terceiros sem que percebêssemos, na verdade, é nosso. (Leonardo Sakamoto)

Recentemente li o artigo do Jornalista Leonardo Sakamoto, do qual extraí o excerto acima, e que trata de como ondas de fundamentalismo, intolerância e moralismo podem ser fomentadas mediante a utilização dos veículos de mídia. Embora abordasse a questão dos recentes casos de ataques à manifestações artísticas, o artigo analisava o uso dos mesmos por políticos interessados em aumentar sua popularidade afim de conquistar votos – especificamente citando o caso de Lorde Farquaad*, o atual prefeito engomadinho de São Paulo.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

UMA VIAGEM PELOS JARDINS DOS POVOS INDÍGENAS

Homenagem à jornalista Laura Rachid
Por: Antônio Macêdo

Hoje me dirijo aos meus leitores com o mesmo amor e carinho que sempre chego às muitas aldeias e seringais do Acre, do Sudoeste do Amazonas e Noroeste de Rondônia.
Assim como também cheguei aos diversos lugares do Brasil, como Cuiabá-MT, Brasília-DF, São Paulo-SP, Rio de Janeiro-RJ e até fora do país, como Estados Unidos, França, Inglaterra, México, Noruega e outros cantos do mundo que já andei a trabalho do desenvolvimento dos povos da floresta.

Hoje, venho falar de mais uma dessas lindas viagens feitas na floresta do meu estado do Acre, com o intuito claro de homenagear uma pessoa querida.
Laura Rachid, uma amiga jornalista maravilhosa de 24 anos que realizou sua primeira experiência nas aldeias indígenas do Acre. Visitou os povos Huni Kuin do Alto Tarauacá, Rio Jordão e Rio Breu, passou pelo povo Apolimas-Arara para chegar à aldeia Ashaninka do Rio Amônia, dormiu em aldeia Ashaninka do Rio Breu e conheceu os Kuntanawa do Rio Tejo. Tudo isso em minha companhia por 52 dias, na recente viagem que tive o privilégio de realizar.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

EXERCITANDO A ARTE DE VIVER: Ensinamento Ashaninka...

Ou, como uso o conhecimento do Povo Ashaninka como uma de minhas filosofias de vida…
Por: Jairo Lima

“(...) Nossa cabeça é como o mundo e o mundo é como nossa cabeça. A testa é o pensar. O pensar é a calma (1), a ação, a adrenalina, o susto (2) e a reflexão (3). Os Ashaninka sempre agiram para manter esses três em equilíbrio” - Wewyto Ashaninka*

Parece que o céu se diluiu totalmente em lágrimas que lavaram e abençoaram o Juruá. Miríades de cupins voadores, que o povo daqui costuma dizer que é uma ‘formiga’, invadiram o céu à tardinha e se aglomeraram enlouquecidamente em torno de qualquer facho de luz, como se estivessem hipnotizados. Assim foi o fim de semana que oficialmente abriu nosso inverno, e que, se nos balizarmos por esta pequena amostra, certamente teremos meses muito ‘molhados’.

Não sei definir como foi a semana que passou, ao contrário do que faço comumente, pois, ao sentir os nervos à flor da pele e a mente sobrecarregada de preocupações, me dei conta de que precisava ‘retirar-me’ desse plano, camuflando-me de maneira despercebida, como se o ‘mundo’ passasse por mim inadvertido de minha presença e eu, também, despercebido, não daria conta da passagem deste.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

TEMPOS CONFUSOS E INSENSÍVEIS...

A crescente repressão que a arte vem sofrendo no Brasil é realmente uma questão complicada... mas você já ouviu falar do Genocídio Indígena?

Por: Raial Orotu Puri

Realmente vivemos tempos estranhos nessa terra que batizaram de Brasil... As notícias, movimentos, mobilizações e fogueiras cotidianas da internet de fato têm deixado explícito que, parece que quanto mais avançamos no tempo em termos históricos, mais as pessoas parecem ser invadidas por um certo quê de ethos medieval. Um dos campos que mais tem despertado este espírito é o das artes, com um conjunto de situações estranhas em que repentinamente exposições, quadros e performances são julgados por uma multidão de críticos de arte saídos do nada.

Bem, sobre esse assunto, eu gostaria de dizer que não tenho necessariamente uma opinião muito completa a manifestar. Antes de qualquer coisa, porque eu não sou crítica de arte, nem a consumo em profusão o suficiente para me arrogar a isto. Claro, não estou dizendo que só quem tenha alguma formação ou qualquer coisa do tipo possa omitir opiniões sobre o que é ou não arte. É só que eu penso que nesses casos deveria valer aquela regra de ouro de que o fato de eu não gostar de um determinado tipo de arte não me concede legitimidade para simplesmente decretar que aquilo de que não gosto não é arte.

Afinal de contas, existe uma diferença bastante considerável entre eu não gostar de algo, e acreditar que o meu ‘não gosto’ me dá algum direito quando a dar um veredito sumário acerca da impossibilidade de existência daquilo de que eu não gosto, não é mesmo?! Do mesmo modo que existe uma diferença enorme entre considerar uma arte ruim e associá-la à apologia a um crime dos mais graves, tal como é a associação que tem sido feita à pedofilia. (Cite-se sobre isso o caso de um quadro que era uma denúncia e que foi tratado como apologético...)

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O COMEÇO DE MINHA HISTÓRIA: Do berço de ouro ao paraíso perdido

Por: Txai Antônio Macêdo
Primeiras memórias: meu pai...
Procuro reconstituir a memória e a história de um grande infante, porém determinado, e  por sua vez traído pelo destino inóspito de um “paraíso perdido”.

Meu pai senhor Raimudo Batista de Macêdo, por ironia do destino aos seus nove anos de idade saiu de Belém de onde vivia em glória junto com meu avô Miguel Arcanjo de Macêdo, minha avó Luíza Guedes de Macêdo, meu tio José Batista de Macêdo (J.Macêdo), suas irmãs Noêmia Cunha de Macêdo, Edite Batista de Macêdo, Josefa Batista de Macêdo dentre outros possíveis irmãos.

Nascido em 27 de setembro de 1909, por volta de 1918, com aproximadamente 09 (nove) anos de idade foi autorizado por meus avos acompanhar sua madrinha numa viagem aventureira ao Aquiri, atualmente Acre. Localidade que mais tarde passou a ser chamado território do Acre.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

SAGRADO DE BOTECO e outras reflexões sobre as esquisitices da semana...


Por: Jairo Lima

Nesta semana confusa, onde uma forte chuva indicando a chegada de nosso ‘inverno’ amazônico trouxe destruição e prejuízos ao Seringal Empresa*, aqui pelas bandas do Juruá as águas ainda não caem com tanta frequência, mas o vento fresco e a sensação de ‘abafado’ é o sinal que vem muita água em breve.

Não posso dizer, nem reclamar que o mês octo** chegou de mansinho, em passos tediosos. Ao contrário, entre os afazeres da labuta diária e ‘papos de índio’ bem interessantes, não pude deixar de registrar em meus alfarrábios mentais algumas situações que, se não carecem de maior atenção através de um papo mais profundo, também não poderia deixar passar ao largo de minha pena. Destas situações cito uma bem interessante.

Vamos lá...

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

NADA IMPEDIRÁ: Algumas reflexões febris sobre conformismo e determinação.


Por: Raial Orotu Puri

Depois de alguns dias de silêncio após um texto suicida, de um sem número de crises por conta de tentar - com parcelas iguais de sucesso e falta dele - escrever a minha tese de doutorado para qualificação antes do final do ano, e antes que meu orientador me mande um bilhete ameaçador acompanhado de antraz, eis que resolvi dar uma pequena pausa para escrever uma reflexão para a semana (neste caso, também antes que eu receba merecidamente uma carta bomba do meu amigo Jairo).

Resolvi começar do zero outra vez, apesar de ter um texto já bem avançado e em fase de fechamento... Acho que como na semana passada não consegui chegar à conclusão, penso que não cabe insistir naquele assunto por hora. Talvez algum dia volte a ele.

Penso ser importante ressaltar um detalhe nada pequeno a respeito do texto presente: dado que meu notebook velho de guerra já está há dias em vias de cruzar o cabo da Boa Esperança, e, infelizmente, nem duas visitas à manutenção foram suficientes para afastá-lo do vale da sombra da morte, este texto está sendo escrito naquela que é praticamente a única ferramenta que está mais ou menos funcionando em toda a estrutura sem que seja necessário reiniciar a cada 10 minutos: o bloco de notas! (Pois é, agora calculem os efeitos disso quando você já está nervosa por conta da necessidade de escrever um trabalho e imaginem o meu nível de simpatia para com a situação...)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

SAGRADO INDÍGENA: quando a busca pela cura vira um negócio de desavisados...

Por: Jairo Lima

A última semana do mês de setembro já ia dobrando a esquina do calendário, e eu ainda não tinha ouvido as cigarras que sempre fazem seu triste concerto nesta época do ano. Por onde andam as cigarras? Pude notar que não fui o único a sentir sua ausência, pois observei manifestações de outras pessoas sobre isso, nas redes sociais.

Um estranho cansaço tomou conta de mim nesta semana e junto com ele a melancolia acenava-me matreira, mas dela fugi, dedicando minha atenção e pensamentos a outras paragens mais positivas, longe de sua vista e influência.

Entre as labutas e pelejas diárias do meu indigenismo de cada dia me deparo com as mais diversas (e em alguns casos bizarras) situações, que me testam os limites constantemente.
Entre estas atividades costumo atender a visitantes que vêm de várias partes do mundo em busca de vivências nas comunidades, sendo estas, quase em sua totalidade, voltadas ao xamanismo. São atendimentos diretos e, em alguns casos, intervenções indiretas em situações que necessitam de uma atenção mais institucional para resolver alguma situação (muitas vezes desagradáveis), durante estas visitas.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

ARTESANATO INDÍGENA: Ciclo da vida e da harmonia com a natureza...

Panela de barro, Povo Nukini
Por: Jairo Lima

Nesse dominicus* em que minha pena tecnológica traça as linhas dessa crônica e um resfriado me aflige a paciência, observo que as redes sociais estão pegando fogo, ‘acendidas’ por alguma ‘polêmica da semana’ que surrupiou os ânimos e os neurônios de muitos, penso na semana que passou, em que o espírito do grande pajé  Sapaim Kamayurá voou em direção às estrelas e onde, uma série de pequenos dramas e percepções se interligaram como que traçados em uma teia por uma aranha fantástica, tal qual o ser divino e sobrenatural que ensinou os traços das pinturas do Povo Ashaninka.

No meio de tudo isso comecei a dar publicidade de um projeto que venho desenvolvendo, e que tem tudo pra dar errado, morrer na praia, como costumam dizer. Trata-se de divulgar e fomentar a produção e valorização de uma prática que, pelo menos pelas bandas do Aquiry precisa ser mais difundida, sob o risco de se tornar um conhecimento ‘perdido’ no decorrer dos anos que virão: produção de arte e artesanato a partir de matéria-prima natural, utilizando técnicas tradicional (pelo menos em grande parte) em seu feitio.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

SETEMBRO: É amarelo. E é vermelho cor de sangue. E translúcido como a sua indiferença...



Por: Raial Orotu Puri

Pois é, estamos em setembro... Se de 2017 ou de 2016 – fase II, não sei dizer... Mas, seja de que ano for, é setembro, e passar por setembro, no Brasil de hoje, certamente é para os fortes... E o é também por ser um mês com uma relativa quantidade de datas consideradas importantes para o movimento indígena mundial, algumas delas comemorativas, outras nem tanto assim, e algumas, nem de longe...

Penso que é um mês um tanto bipolar: Setembro marca o início da primavera neste lado do hemisfério, e, em geral, existe certa associação entre essa estação e a renovação da esperança e da vida, e, no entanto, é o “Setembro Amarelo”, o mês da conscientização e prevenção do Suicídio...

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

UMA PEQUENA HISTÓRIA ÀS MARGENS DO RIO TARAUACÁ…

Por: Jairo Lima

O sol estava a pino. Já passava do meio dia quando ele finalmente conseguiu acertar tudo direitinho com o barqueiro que aceitou levá-lo, na subida do rio Tarauacá. Fazia muito calor naquela tarde de setembro, e conseguir um barco foi o menor dos problemas naquele dia.

- Pra onde você quer ir mesmo? - Era a pergunta mais frequente que ouvia pela cidade, onde quer que parasse para resolver alguma coisa antes de sua viagem. Talvez a estranheza se desse pelo fato de aparentar ser muito jovem. Talvez por ser extremamente branco e aparentar fragilidade. Talvez por parecer uma pessoa estranha mesmo, com cabelos longos e brincos: “Mais um maluco atrás do que fazer…” - Foi o comentário venenoso ouvido de uma mesa ao lado, quando certo dia almoçava com um indígena que o acompanharia, sem se dar conta que estava falando um pouco alto, e, certamente, com um ‘estilo’ de fala (o tal ‘sotaque’ conhecido no interior como ‘sotato’).

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

DOS POVOS IN-SEM AOS COLETIVOS DEVERIAM SER.


Por: Domingos Bueno

Um dia desses uma pessoa me perguntou se eu gostava de ser antropólogo e músico. Disse que sim, que tinha grande admiração e gratidão pelos assim chamados índios principalmente pelas soluções geniais que ao longo de sua existência tem adotado para lidar com seus vizinhos, com a natureza, com as doenças e com os não-índios e que, eu que não sou índio, também não pretendo sê-lo.

Digo isso porque não gosto muito de negócio de brancos versus índios. Brancos quem, cara-pálida? Os europeus do leste ou do oeste? os negros? os japoneses? Eu, moi, particularmente sou, honrosamente, por um lado descendente de italianos do norte e de outro de brasileiros frutos da mistura de índios, negros, portugueses e, salvo engano, de até de holandeses dos guararapes.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

DIREITOS AUTORAIS COLETIVOS E INDIVIDUAIS: O que isso tem a ver com a cultura indígena?

Por: Jairo Lima

Na semana que passou, enquanto apreciava o sabor marcante do matxu* e admirava as belas peças de artes indígenas, trazidas do Festival Shanenawa, da Terra Indígena Katukina/Kaxinawá, um pedido de esclarecimento sobre procedimentos de registro de canções Huni Kuin me alertaram para uma situação que vem ocorrendo bastante, e que, certamente trará problemas para este povo, no futuro. O interessante é que não se pode dizer ser uma situação exclusiva deste povo, pois já vi situações semelhantes ocorrendo, ainda que em menor grau, nos demais.

Trata-se da questão de registro das músicas tradicionais, cantadas por txana** e das canções de autoria dos diversos ‘cancioneiros indígenas’ dentro e fora do Brasil.
Com o aumento de jovens indígenas que, com o violão embaixo do braço, e munidos das chamadas ‘medicinas indígenas’ excursionam por esse mundão de carência espiritual um novo mercado vem crescendo bastante: o de registro, em CD e demais mídias, de canções indígenas.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

IDENTIDADE INDÍGENA NÃO É FANTASIA

Por: Raial Orotu Puri

Este mês começou para mim com uma cena um tanto quanto pitoresca, que gostaria de utilizar de base reflexiva para este texto. Bem, outro dia, uma conhecida me interpelou para perguntar se eu tinha alguma roupa, enfeite de cabeça para emprestar ao filho dela, que iria realizar uma apresentação na escola. Perguntou-me em especial se eu não teria um cocar tipo o que ela vira na cabeça de um dos txai Huni Kuin que ela vira em minha companhia no dia anterior. Ela explicou-me que havia procurado em lojas de fantasia, mas lá só tinha para crianças pequenas, e, portanto, não caberiam no filho, já que é um adolescente.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

ENCONTRO DE MULHERES INDÍGENAS NO ACRE

A resistência indígena se expande com o empoderamento da energia feminina indígena!

Por: Dedê Maia

Esse encontro tão especial traz a relembração histórica do movimento dessa Força Feminina Indígena que tive o privilégio de conhecer, e acompanhar de perto, desde seu protagonismo no cotidiano de suas aldeias, carregando seus paneiros pesados de macaxeira e banana, fazendo comida, batendo algodão, tecendo suas redes... Nossa! É muita força e energia em ação!

Traz ainda relembrações das primeiras reuniões dentro das aldeias, década de 80, quando as mulheres, restringiam-se em participar e ouvir, sentadinhas a certa distância, na roda, onde só os txais tinham voz, e decidiam sobre os assuntos em discussão. Educação, saúde, alternativas econômicas, eram os assuntos que faziam parte de todas as pautas das reuniões. E alternativas econômicas eram preocupações que se destacavam, pois, muitos desses povos, e comunidades indígenas, dependiam até então do trabalho da extração da seringa. Com a queda do valor da borracha no mercado, ficaram sem saber o que fazer para oferecer como moeda de troca. E a mulherada sentadinha no seu canto, escutando tudo...!!! Pensando, talvez, como colocar também sua força, sua energia, seus saberes à disposição da luta dos parentes, dos seus parceiros, por uma vida mais digna. Concretamente pensando como ajudar a comprar o sal, o combustível, a munição para as caçadas, sabão, etc. Coisas que já faziam parte de suas necessidades básicas.