quinta-feira, 22 de junho de 2017

SOBRE O ÓDIO CEGO QUE ASSASSINA E A VIDA QUE INSISTE EM RESISTIR

Por: Raial Orotu Puri

Eu as vezes fico me perguntando se existiria uma correlação entre as pessoas que assistem alguns tipos de filmes e o modo como eles encaram a realidade que os certa. Por exemplo, pessoas que se interessam muito por filmes de guerra, teriam esse interesse específico para suprir ou situar a violência do mundo no ambiente ficcional? E pensando assim, talvez ser fã de filmes sangrentos hiper-realistas – mas ainda assim irreais – seria só uma outra espécie de escapismo, de tentativa de colocar a brutalidade, a própria ou a dos outros, em uma situação controlada, visto que ela se limita ao tempo e ao ambiente da película e não extrapola para o plano do real (pelo menos em tese, e guardadas as devidas exceções sociopatas-inspiradas, o esquema funciona bem, e os aficionados em violência fictícia permanecem sendo pessoas normais e não necessariamente capazes de atos violentos reais simplesmente porque gostam de vê-los representados no cinema).

Pessoalizando um pouco o tema: eu sempre fui muito interessada na Segunda Guerra Mundial... li uma quantidade considerável de livros e assisti outros tantos filmes sobre o tema. E no meu caso, não tem nada a ver com qualquer tipo de interesse bélico, muito pelo contrário, aliás. Meu foco quase sempre foram as narrativas sobre as vítimas, embora também tenha dedicado alguma atenção sobre a análise psicológica dos algozes. E sou levada a pensar que isso também era uma tentativa minha inconsciente de expulsar do meu cotidiano certos níveis de crueldade cujas dimensões chegam ao insuportável.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

KAMBÔ: Um caso de polícia?

Rã Phyllomedusa bicolor, o kambô - Imagem: divulgação
Por: Jairo Lima

Na semana que passou estive às voltas com um caso bem interessante. Participei da análise de um processo envolvendo denúncias de lideranças indígenas quanto ao uso e propaganda indiscriminada das medicinas tradicionais indígenas, em especial o kambô, estrela entre as medicinas, que, juntamente com a ayahuasca e o rapé, formam a tríade de produtos de origem indígena mais buscados.
Depois de mais de quinze anos o kambô volta ao foco das denúncias e incômodos dos povos indígenas.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

‘FALANDO COM’, ‘FALANDO POR’ ou ‘FALANDO DE’: as nada sensíveis diferenças na comunicação e a invisibilidade de quem deveria ser protagonista

Por: Raial Orotu Puri

Quero começar este texto com uma pequena narrativa sobre um fato que testemunhei tempos atrás. Não pretendo nomear pessoas, e não por algum tipo de receio sobre o que e de quem estou falando. É que minha intenção aqui é destacar não tanto a situação e seus envolvidos em particular, mas o comportamento percebido. Talvez alguns dos que leem reconheçam o evento. E talvez outros tantos reconheçam nesse caso particular um espelho de outros vários. Provavelmente! Afinal de contas, eu ando cada vez mais incerta sobre a existência dessa coisa que chamam ‘fato isolado’.

Pois bem, senta que lá vem história...

segunda-feira, 12 de junho de 2017

SOBRE SENTIMENTOS DISSONANTES...

Autora: Heloisa Paim
Por: Jairo Lima

O frio chegou com força aqui no Juruá. A chuva fria e o vento gelado indicam que teremos alguns dias de gostoso refrigério natural de dezesseis graus que, se para os que habitam o Sudeste e o Sul é uma temperatura não tão fria, para nós aqui do Aquiry (Acre) é com se estivéssemos morando no reino de gelo do GoT*.

A semana que passou me arrastou para pensamentos e sentimentos profundos muito particulares, nada a ver com este escangalho todo que assola os pensamentos e a existência política nacional.

Cheguei ao sábado, dia que costumo escrever minhas crônicas, num estado de espírito que nos dias confusos que vivemos atualmente pode parecer loucura ou alienação. Pode-se, inclusive achar que este estado poderia ser efeito de algum medicamento ou até mesmo sinal de alguma enfermidade.
É um sentimento que, se expressado abertamente no palco dos dramas e arena de egos, conhecido popularmente como Facebook, geraria emotions estranhos, comentários diversos e, com certeza, algum ‘textão’ com uma reprimenda nos comentários, feito por alguém que se acha o guardião de como os outros devem se sentir ou se comportar.  Mas que estado de espírito tão bizarro seria esse?
Respondo: felicidade.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

PARTO NATURAL: Fazer ‘como as índias fazem’ ?

Por: Raial Orotu Puri

Dias atrás vi um post de uma amiga de face compartilhando uma reportagem bastante elogiosa a respeito de uma cena de novela atualmente no ar na TV aberta. Como o comentário me chamou a atenção, resolvi abrir o link para dar uma olhada. Tratava-se do elogio a uma cena considerada inédita na dramaturgia brasileira, na qual um dos personagens auxilia a sua esposa em um trabalho de parto inicialmente difícil, ensinando-lhe a fazer ‘do modo como as índias fazem’. Após a iniciativa, o bebê nasce com facilidade, e o desfecho termina com sorrisos aliviados de todos os presentes.

Cabe comentar que meu interesse pelo texto em questão não foi tanto a descrição da cena em si, nem a defesa do parto natural. De início, o que me chamou a atenção foi ‘ensinar como as índias fazem’.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

FESTIVAIS INDÍGENAS: Momentos de alegria, vivências e ‘outras cositas mas’...

Grupo Kayatibu, Jordão - Foto: Edilene Sales Huni Kuin
Por: Jairo Lima

Iniciamos o mês da deusa Juno, numa semana bem interessante, onde pude ‘desopilar’ de muita coisa que vinha me atormentando. Forcei-me a reeducar minha alienação diária, filtrando bem mais minha leitura dos periódicos políticos e das notícias de rádio (via internet, é claro), a que me impunha religiosamente todas as manhãs, após uma boa e energizante caneca de café sem açúcar. Claro que fiz isso em nome de minha sanidade e do equilíbrio mental necessário para a labuta diária que, para mim, devido sua natureza singular, vai além da questão meramente profissional.

Este mês junino (ou junina, já que é da deusa) é também o período que marca os festivais da ‘nação ayahuasqueira’ pelo Brasil e, claro, principalmente aqui no Acre, berço das igrejas do Santo Daime em suas duas principais doutrinas, bem como das demais comunidades espalhadas nesta terra de encantos.

Os tão aguardados festivais indígenas também iniciam neste período, espalhando-se tal quais raios de sol por toda a nação indígena no Aquiry. Dos Huni Kuin até os Ashaninka, passando pelos Yawanawá e pelos Noke Koi, estas festividades marcam o ciclo comemorativo e místico que cada vez mais tomam conta de nossas florestas, principalmente no Juruá.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

SOBRE ‘ELES’: os ‘outros’ sem rostos nem pátria...

'Raízes" - Frida Kahlo
Por: Raial Orotu Puri

Esse texto é, de certa forma, uma continuação ou desdobramento de meu texto da semana passada, no qual eu discuti questões sobre a [falta de] empatia, envolvimento e reação por parte da população não-indígena dos constantes atentados aos direitos (e à vida) que os povos indígenas vêm sofrendo. Sinto que é necessário aprofundar um pouco mais em alguns pontos que talvez tenham ficado um pouco obscuros, ou que precisam de mais ênfase. É claro que não estou fazendo isso de graça; esta motivação de voltar à discussão se deve a alguns acontecimentos dos quais tomei ciência, bem como de alguns comentários sobre meu texto anterior, e que me fizeram entender a necessidade explicar melhor o meu argumento.