quarta-feira, 29 de março de 2017

SOBRE RAZÃO, SAGRADO INDÍGENA E INSENSIBILIDADE

Por: Raial Orotu Puri


Eu tenho uma parte insensível em meu corpo. Não nasci assim: trata-se de uma espécie de sequela de uma cirurgia que fiz alguns anos para remover de sob meu braço “uma coisa que não devia estar lá”. Bom, a operação foi um sucesso, afora a curiosa sensação da pele junto ao local do corte ter ficado insensível ao toque. Não vou me demorar na explicação científica dessa anormalidade, mas tem a ver com o trauma do corte e a destruição de algumas estruturas responsáveis pela transmissão de estímulos nervosos ao cérebro. Fora algumas fases algo paranoicas a respeito da possibilidade de me machucar e não sentir, o fato em si não chega também a ser uma coisa extremamente desagradável, só é um pouco esquisito ter uma parte de si mesmo que não sente igual às demais. Como já faz uns bons anos desde a cirurgia, tenho a impressão que existe uma probabilidade de que o efeito seja permanente, embora já tenham me falado que demora bastante tempo, mas a pele volta ao normal.  

Também me disseram certa vez que se eu tentasse a acupuntura, poderia reverter esse quadro. Pelo pouco que sei sobre esta técnica oriental, ela de fato faz verdadeiros milagres, sendo capaz inclusive de recuperar a sensibilidade e devolver o movimento ‘normal’ a tecidos danificados e músculos atrofiados, sendo eficaz até mesmo em casos graves, como as sequelas derivadas de um AVC, ou de um acidente. Bom, mas meu caso é do tipo ‘não é para tanto’, e vida que segue.  

segunda-feira, 27 de março de 2017

SOBRE TEMAS DESAGRADÁVEIS E OUTROS ASSUNTOS AFINS...

Autor desconhecido
Por: Jairo Lima

A semana que passou não deixará, pelo menos para mim, nenhuma saudade. Foi cheia de notícias desagradáveis, falsas moralidades e desculpas esfarrapadas por todos os lados. Isso sem contar com a tal moral hipócrita, tão em uso ultimamente que até parece ter se tornado uma das virtudes humanas.
Sento em minha poltrona favorita para escrever a crônica da semana e me deparo com um problema: sobre o que escrever? Afinal, foi uma semana com tantas coisas acontecendo.

Enquanto penso em algo ligo para a esposa. Ela não atende e lembrei que a mesma está em atividade na terra dos Shanenawa, discutindo um interessante projeto de registro das canções tradicionais deste povo. Perguntaria a ela sua opinião sobre eu escrever esta semana a respeito de “educação escolar indígena”. Talvez refletir sobre a letargia que tomou conta do Aquiry nos últimos anos e que fez com que este estado, que outrora ostentou a primazia no assunto, agora dispute um espaço na lanterna, tentando recuperar-se, tendo sido ultrapassado até por outros estados que eram considerados, até alguns anos atrás, péssimos exemplos sobre o assunto.
Não. Assunto muito desanimador sendo que a semana que passou já foi desmotivante demais.

sexta-feira, 24 de março de 2017

UMA MIRAÇÃO – e o que ela tem a ver com a Defensoria Pública Estadual e as/os indígenas

Mulher Madija - Foto: Acampamento Revolucionário
Por: Cláudia Aguirre

Uma miração

 Num sábado à noite recebi o honroso convite para participar de uma rodada de Uni[1] em Mâncio Lima, com a presença de indígenas de várias etnias que estão no centro urbano daquela cidade pelos mais variados motivos - trabalho, tratamento de saúde, estudos, estar de passagem entre um local e outro, e assim por diante. Trata-se de um momento em que elas/es se reúnem pra fortalecer essa irmandade por meio da vivência de suas raízes que o compartilhar do Uni representa. Experiências como esta – que sempre se dão num clima de uma alegria muito sagrada - são uma das muitas provas de que índio/índia na cidade não deixa de ser índio/índia, não: ele/ela carrega consigo a energia de seu povo e de sua terra.

Entre goles de Uni e muita cantoria iniciada sob a lua cheia e estendida até o amanhecer, tive a seguinte miração: a fotografia de um índio sério, com um ar grave, pesado, vestido com uma camisa xadrez fechada até o pescoço, num quadro pendurado numa parede mofada.
A imagem me deu um desconforto muito profundo, uma aflição. Abri rapidamente os olhos. Olhei a lua esplendorosa no céu. Olhei para os parentes, alegremente imersos nas suas músicas. Que alívio.

DEFENSORIA PÚBLICA: o que é e pra que serve

Quadro de Joceane Biscegli
Por: Cláudia Aguirre

Creio que é importante falar no que consiste a Defensoria Pública como instituição. Tal como os direitos dos povos indígenas, a Defensoria Pública tem sua existência prevista na nossa Constituição Federal, mais especificamente em seu artigo 134[01]. Quando este artigo diz que a Defensoria Pública é instituição permanente, isto significa que a sua criação pelos Estados e pela União é obrigatória e, uma vez instituída, não pode ser extinta de modo algum. Por sua vez, ser essencial à função jurisdicional do Estado significa que, para o sistema de justiça funcionar a contento, não basta termos o juiz, o advogado, o promotor de justiça; tem que ter Defensoria Pública.

quarta-feira, 22 de março de 2017

SOBRE ARTE, ARTESANATO INDÍGENA E VISÕES RACISTAS DE ESTÉTICA

Arte de Edilene Sales Huni Kuin
Por: Raial Orotu Puri

A partir do dia 31 de março de 2017 passa a ser obrigatório a todos os comerciantes e agentes de leilão que negociam antiguidades, obras de arte, manuscritos e livros antigos ou raros o cadastramento em uma plataforma virtual, o CNART. A partir dessa data, aqueles que não seguirem procederem ao cadastramento ou não informarem aos órgãos competentes transações consideradas suspeitas estarão passíveis de multas. A fiscalização do setor estará a cargo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Trata-se, em realidade, da regulamentação de uma nova-velha atribuição do Iphan, visto que esta atribuição já se encontrava prevista desde a criação desse órgão em 1937.

O objetivo principal da regulamentação do setor é a prevenção da lavagem de dinheiro, bem como a identificação de objetos passíveis de reconhecimento como integrantes do patrimônio histórico e artístico nacional.   

Travar conhecimento com as regras acerca do tema do comércio de obras de arte – as que existem há oitenta anos, e aquelas que foram publicadas em temos mais recentes* – me fizeram refletir um pouco sobre alguns detalhes mais próximos do patrimônio cultural indígena, e das implicações da hierarquização existente entre aquilo que é ou não considerado ‘arte’ em nosso país.

segunda-feira, 20 de março de 2017

QUANDO O RATO VIRA MORCEGO...

Foto: Sérgio Vale
Por: Jairo Lima

- Tô te dizendo Yube, rato não vira morcego!
- Vira sim! Claro que vira.
- É impossível! Você está enganado, nunca um rato viraria um morcego, pois são animais diferentes! Essa é uma verdade estabelecida pela ciência. Essa tua idéia aí é superstição!
- Tá certo. Você diz isso, mas se passar um tempo na minha aldeia você vai ver que o rato vira morcego.
- Não seja por isso, vou mesmo, e tenho certeza que mesmo que eu passe uma vida lá, ainda assim o rato não vai virar morcego.


Tive este diálogo com o grande amigo José de Lima Yube Huni Kuin, na cidade boliviana de Cochabamba, durante uma viagem que fizemos pelos Andes, em 2001, quando este ainda era um jovem Agente Agrofloroestal de 19 anos. Nos anos que se seguiram a tão estranho diálogo,  Yube tornou-se um grande cineasta e Assessor de Assuntos Indígenas do governo do Acre. O ponto da teima era justamente o fato de que, culturalmente, muitos povos da floresta, entre estes o indígena, crê que o rato vira morcego.

sexta-feira, 17 de março de 2017

KUSANATY: O mundo xamãnico Apurinã - PARTE I

Por: Francisco Apurinã


A dedicação do xamã para se tornar de fato um kusanaty com poderes ilimitados, tanto para praticar o bem quanto o mal, faz dele a pessoa mais importante e mística das aldeias apurinã.

Existem dois tipos de kusanaty: um trabalha somente com a “medicina tradicional”, cuja ervas medicinais encontradas na floresta são utilizadas para banhos, chás e rezas durante rituais de cura; o outro, do qual falarei aqui, opera com poderes xamânicos materializados em pedras introduzidas em seu corpo. São estes os verdadeiros diplomatas do cosmos, aqueles que detêm os conhecimentos tanto para curar, como para causar doenças e até mesmo para matar. São eles que possuem códigos para se comunicar com o mundo dos espíritos da floresta, habitantes de outras terras, e ainda são responsáveis por acontecimentos inusitados que transcendem aquilo que nossos olhos leigos podem ver. Isso ocorre de modo que somente outros pajés com saberes análogos conseguem compreender, como bem ressaltou Katãwyry Apurinã: