domingo, 9 de setembro de 2018

BANHO DE ERVAS E UMA ‘GARRAFADA’: Purificando o corpo e o espírito...

Huni Kuin e o banho de ervas - Foto: Camila Coutinho
Por: Jairo Lima

Depois de quase um mês após o ritual final da 2a Conferência Indígena da Ayahuasca posso dizer que, para mim, este ritual ‘fechou’. E tive essa sensação após o segundo dia de banhos com ervas medicinais na aldeia Shane Kaya, aos cuidados do velho Shoaynë e de suas filhas e netos, quando, ao sentir o líquido morno e cheiroso derramando-se sobre minha cabeça senti - literalmente - o mundo girar: - “Melhor tu ficar sentado”. - Mukani falou com sua voz suave, enquanto passava em minhas costas as folhas quentes da fervura. Foram três dias de ‘banhos’ muitos fortes, e cheios de significados.

Terminado estes dias de lavagens do corpo e do espírito voltei para casa. Na mochila um frasco com dois litros de uma ‘garrafada’ preparada pelo Shoaynë, para continuidade da ‘dieta’ iniciada na aldeia. Digo a vocês, caros leitores: pensem num remédio forte! Mexeu com muitas coisas em mim.

domingo, 26 de agosto de 2018

TRAVESSIA NOS TERREIROS DOS PARENTES PUYANAWA: rumo ao universo da Ayahuasca curandeira

Por: Dedê Maia

Mais uma vez eu me encontrava entre os parentes da floresta.
O sentimento era o de sempre. Sentia-me realmente entre parentes dessa grande família florestana, e naquele momento específico, muito grata a organização do evento pelo convite, e de ter possibilitado a minha presença nesse importante evento, realizado na aldeia sagrada dos Puyanawa, nossos anfitriões. 

Essa aldeia foi construída em 2008, para a revitalização cultural desse povo. Um lugar que por si só já faz você se sentir acolhido e emocionado pela generosidade da mãe natureza, rodeando a aldeia zelada com muito cuidado pelas famílias Puyanawa, com sua floresta de muitas jóias e igarapés de águas cristalinas.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

O FUSCA, A AYAHUASCA E OS POVOS ORIGINÁRIOS

O Fusca guerreiro, amarrado na TI Puyanawa
Foto: Domingos Bueno
Por: Domingos Bueno

Dia 10 de Agosto no prédio da Funai de Cruzeiro do Sul ouvi um aviso inusitado:  Daqui a pouco chegarão uns parentes que estão vindo do Pará, numa viagem de cinco dias dentro de um Fusca!

Imaginei que seriam figuras de linguagem próprias da euforia que acompanha esses momentos liminares dos encontros e congressos, onde pessoas por vezes desconhecidas ou que se reencontram procuram alinhar expectativas e ansiedades mútuas que extrapolam o sensível. Não era esse o caso.

Após alguma espera e endereços trocados por SMS eis que chega o possante 1300 com rodas de liga leve, portando três queridos txais Xypaia do Pará que formam  uma família com seu filhinho que ainda não interava um ano de idade.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O PERFUME…

Por: Jairo Lima

“...E o Perfume preencheu-me o  Ser…”

A noite fria me entorpecia os sentidos, mesclando-se com a visão fractal que tomava minha percepção etérea do ‘outro mundo’, dando movimento e preenchendo o ambiente com uma energia quase elétrica.

Eu já não sabia dizer há quanto tempo estava ali, nem quando tudo começou, a não ser pela vaga e longínqua lembrança do txai Benki Ashaninka entregando-me um pequeno copo, com um encorpado e escurecido líquido, o kamarãpy*, bebida sagrada que me guiaria nos caminhos ainda indecifráveis que eu tomaria naquela noite.  

Um toque suave, mas firme,  em meu peito, dava um compasso contínuo e sincronizado com meus batimentos cardíacos, que me acalmava e acalentava, enquanto um cheiro suave, de início indecifrável, começou a prender-me em doces sensações, somando-se ao esforço da pequena Mukani em mitigar a dor que, tal qual um algoz sem coração, torturava-me através de minhas costas. Sentía-me contorcer em dor. Seria isso decorrente da forte pressão e visões que o ‘vinho sagrado’ trazia-me em intensidade que há muito não sentia? Seria, talvez, decorrência da fadiga quase doentia dos últimos quinze dias? Não sei…

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

SOBRE PÁSSAROS E IMITAÇÕES - Parte I

Por: Raial Orotu Puri
Prólogo: “O balé de fim de tarde” 
...Desde que me mudei para a banda do Juruá no Acre, resido próximo da Catedral de Cruzeiro do Sul, a qual é parcialmente visível pelas janelas laterais do meu apartamento. Através destas janelas, eu também vislumbro um parcial do espetáculo que se dá todas as tardes na praça de frente da igreja. Vez ou outra, quando tenho tempo livre, me dedico a assistir a  toda apresentação do belo balé aéreo: a cada entardecer, durante cerca de meia hora precedendo o ocaso, centenas de passarinhos executam um conjunto de evoluções sincronizadas antes de pousar ao longo dos fios elétricos que ficam na extremidade da praça, aonde se acomodam e passam as noites. Devem haver explicações científicas, advindas da Ornitologia, ou de algum outro ramo de estudos sobre o comportamento de animais sobre tal ‘fenômeno’...  eu me limito a achar belo, poético e digno de alguma filosofia...
Escrevo este texto justamente por causa dos pássaros – os bailarinos, e alguns outros, – e por um tanto de coisas que com eles se relacionam... É que ultimamente tenho sido levada a pensar sobre este tema por conta de algumas situações vivenciadas, e que, por associação, conduzem meu pensamento à algumas classes de criaturas aladas. 


domingo, 29 de julho de 2018

E O RAPÉ, HEIN?: É o assunto do momento? Eu tenho outros...

Por: Jairo Lima

A secura desse verão amazônico tá de um jeito que o velho Juruá está com poucos metros de profundidade, enquanto seu ‘irmão’ da capital, o rio Acre, em breve ficará menos de um metro…

Eu aqui passando mal com a falta de umidade fiquei matutando sobre três assuntos, que não são congruentes em sua totalidade, mas, que na essência, tem muito a ver um com o outro: rapé; 2a Conferência Indígena da Ayahuasca e; meu irmão querendo um ‘desenho’ pra fazer uma tattoo…

Sobre o rapé, assunto que escrevi bastante há uns dois anos atrás, a novidade foi que um grupo de txais buscaram o Ministério Público para denunciarem a banalização do uso e comércio do rapé indígena, pedindo apoio das autoridades para regulamentar e/ou criar mecanismos de proteção ao uso tradicional, pois, segundo os denunciantes, estão misturando o rapé com álcool e drogas, bem como o mesmo está sendo usado de maneira abusiva… etc etc…. (clique aqui para ver a matéria).

É um movimento interessante esse aí dos txais, claro que sem muitas chances de dar algum resultado, mas, ao menos, vale a intenção pôr o assunto de volta ‘na roda’, ao mesmo tempo que traz para o papo as instituições do poder estatal.

Ora, que estão ocorrendo abusos isso não é novidade, e, infelizmente, não é só entre os dawa (não-índios) não. Tem muitos txais indígenas que vem esquecendo os cuidados com seu uso.

sábado, 21 de julho de 2018

ENTRE LEMBRANÇAS E URTIGAS: Encontro feliz com duas guerreiras Yawanawá…

Por: Jairo Lima

A chuva veio!!!

Finalmente, depois de muitos dias de secura e poeira, do céu as gotas de vida caem sobre o Juruá, trazendo aquele cheiro gostoso de floresta molhada e a paz de um céu cinzento.
Nessa semana que passou, enquanto o corre-corre para a organização da 2a Conferência Indígena da Ayahuasca trazia-me cansaço, um punhado de estresse e muita pentelhação de pessoas que, até então, nem imaginava que soubessem de minha mísera existência, recebi uma visita que, além da surpresa, trouxe consigo um jamaxim* cheio de lembranças e boas energias, afastando para longe os maus humores dos últimos dias.

A visita foi das irmãs Mariazinha e Julia Kenemeni Yawanawá, bem conhecidas nesse mundão como ‘caciques’, a primeira, inclusive, tendo sido citada em matéria do jornal O Globo sob o título “ Primeira cacique mulher do Brasil cria desenhos para coleção de grife carioca”**. A segunda, por sua vez, além de liderança de seu povo, também é muito conhecida pelas vivências e trabalhos que participa, tanto em sua comunidade como numa infinidade de encontros e rituais tanto em sua comunidade, como, também, mundo afora.