sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

POR FAVOR, PARE DE FAZER DE CONTA QUE NADA ACONTECEU!

Por: Raial Orotu Puri

Outro dia nas minhas memórias do Facebook fui recordada de um compartilhamento de 2015 que fiz de uma postagem de uma moça dizendo que a sua proposta para o programa de retrospectiva de final de ano era bem curta: fazer de conta que nada aconteceu e desejar feliz 2016. Ao rever a lembrança, ri de novo da piadinha, mas hoje este ‘meme’ me voltou à memória em outra perspectiva aonde o riso deixou de caber...

Assim, gostaria de aproveitar o clima de final de ano, época de retrospectivas tanto televisivas quanto pessoais, para abordar o assunto dos ‘balanços’ de fim de ano.  Acontece mesmo quase sempre que o mês de dezembro seja uma etapa de fechamento de muitas coisas, de retrospectivas e, obviamente, de planos para o futuro.

Inclusive, como é de conhecimento dos leitores desse blog, é nesse clima que se darão na semana que vem dois importantes eventos no Juruá dos quais tomarei parte: a Conferência das Organizações Indígenas do Vale do Juruá, e, em seguida, a Yubaka Hayra, (Conferência Indígena da “Ayahuasca”.) O primeiro evento terá, dentre outras coisas, a apresentação das atividades realizadas ao longo de 2017 pelas instituições indígenas da região; por sua vez, o segundo será o início de uma discussão demandada há muito, de um espaço especificamente indígena para discussão da possível patrimonialização da bebida ‘ayahuasca’.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

UMA NOITE MÁGICA NO TERREIRO DO POVO ASHANINKA: Quando entendi que poderia aprender a voar...

Por: Jairo Lima

Em 2003 as coisas não estavam nada bem pro meu lado. Muitos problemas e pensamentos cruzados infernizava-me a existência e o juízo. Não saberia dizer o que 'tava pegando', mas, com certeza, estava diretamente ligado a uma mudança de ciclo na vida: eu havia tomado uma decisão que daria um novo 'rumo' na vida.

Não que eu estivesse passando por alguma 'panema'*, mas, tinha certeza que 'algo' turvava-me a 'visão' e prendia-me num círculo vicioso de tristeza e incertezas.

Como já conhecia e comungava rotineiramente do 'vinho das almas'** sabia que boa parte desse sentimento poderia ser de origem espiritual ou energético. Quem tem um mínimo de senso de espiritualidade deve saber muito bem do que estou falando. A questão é que isso estava me fazendo mal, perturbando-me de tal maneira que havia transformado meus dias em triste rotina melancólica, desprovida de cores e alegrias, onde nada parecia fazer sentido.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

QUE TAL PARAR DE BANCAR A CACHINHOS DOURADOS DA ESPIRITUALIDADE ALHEIA?*

Por: Raial Orotu Puri

Este texto é em parte uma continuidade de conversas anteriores, e em parte uma sobreposição de pequenos incômodos que sinto com alguns discursos dentro da temática indígena, seja ela acadêmica, seja ela desde a perspectiva da causa, da vida, e, claro, do ponto de vista do ‘caminho sagrado’.

Bom, na perspectiva do Sagrado não pretendia me adentrar, pois penso que o Jairo já tem escrito profunda e brilhantemente sobre isso em vários textos, e realmente, em matéria de Sagrado Indígena eu penso verdadeiramente que não é o tipo de tema que eu considere um território a respeito do qual eu possa discutir com propriedade. Mas acontece que aqui eu queria exatamente sobre ter ou não propriedade, e sobre a enorme distância que existe entre conhecer um pouco e dizer que sabe e pode ensinar sobre seja lá o que for.

Como não deve escapar a ninguém, eu não gosto de falar desse tema. Mas acontece que, volta e meia, eu acabo recebendo mensagens de amigos que me encaminham links para casos e mais casos de desrespeito, apropriação e falta de noção. Algumas vezes, o assunto é puxado com ‘você viu isso?’. Bom, algumas dessas coisas são bem problemáticas, e eu gostaria de ser capaz de ‘desver’ a maioria delas... Mas ainda não aprendi essa capacidade, e por essa razão, vou vendo, me incomodando, e escrevendo a respeito.  

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

UM JOVEM SERINGUEIRO: Minhas aventuras juvenis nos rios de Tarauacá

Por: Txai Antônio Macedo

O marinheiro...

De meus 14 aos 17 anos de idade passei trabalhando como marinheiro nas embarcações da Empresa Leal Maia & CIA na cidade de Tarauacá. Era um tipo de embarcação conhecido na região como ‘batelão’, que pode chegar até vinte toneladas, como era o caso dos batelões: Ramos, Asa Branca e Canoa Muru. Havia também as ‘lanchas’ (barcos de grande porte), que iam de quarenta e cinco até sessenta toneladas,  como as lanchas Jaminawá (45 toneladas) e Rio Tauarí (60 toneladas). O trabalho consistia em subir e descer os rios e igarapés, percorrendo varadouros e varações. Nossa missão era abastecer cem seringais pertencentes à Empresa Leal Maia & CIA LTDA e muitos outros que tinham sua produção financiada por esta empresa. Era nossa missão: escoar a produção recebida dos seringais, transportando-a para a cidade de Tarauacá, de onde seguiria para Manaus e Belém.

Era uma missão espinhosa, cheia de dificuldades. Nós, por pura responsabilidade adquirida de berço, tínhamos que tomar conta e dar conta, sempre da melhor forma possível, mesmo que fosse trabalhando só mesmo na fé e na coragem, como se poderá observar no conjunto dos fortes e episódios que narrarei em seguida.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

CONFERÊNCIA INDÍGENA DA AYAHUASCA: desconstruindo a Torre de Babel...


Por: Jairo Lima

Passa-se um ano, novembro de 2017, numa roda de conversa entre sertanejos, sob o céu estrelado de Quiserademim, sertão do Ceará, seu Ariano Suçuarana, sábio ancião daquela comunidade camponesa, com seu afiado canivete corta troços de rapadura e distribui para os amigos em volta poderem degustar do doce alimento. E comenta: — Que povo diferente esses cientistas nacionais e estrangeiros. Pra conhecer o sabor da Rapadura, não basta provar?
O excerto acima é o arremate do texto publicado pelo professor Juarez Duarte no Jornal Grande Bahia, sob o título ‘1ª Conferência Indígena da Ayahuasca. Ayahuasca e rapadura’*,  além de bastante cômico, foi de uma genialidade ímpar ao aludir os contrastes entre a busca acadêmica/científica por explicações e o apreço/conhecimento derivado do simples fato de apreciar e ‘provar o sabor’ daquilo que se propôs a estudar/pesquisar.

Muita água passou por baixo da ponte nessas duas semanas que se passaram, desde que publiquei o último texto, cedendo lugar à querida Dedê Maia, que nos apresentou seu documentário Xinã Bena Beisikit Xarabu, que estreou em Rio Branco no último dia 19 de novembro e tem sua premiére indígena marcada para ocorrer durante a Conferência Indígena sobre ayahuasca, entre 13 e 17 de dezembro.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

SOBRE CAMINHOS…

Por: Raial Orotu Puri

Um tempo desses atrás uma amiga fez um comentário sobre uma foto minha de que gosto muito. A questão me voltou à memória, devido a uma parte de uma conversa muito bela e produtiva que tive na data de ontem. O comentário de minha amiga falava que sempre que via a minha foto, ela pensava em ‘caminho’, caminho esse que a chamava a ser trilhado.

À época da conversa, esclareci à minha amiga que, de fato, a imagem era de uma ponte que atravessava de um lado a outro sobre uma espécie de lago, que, por um fato específico ocorrido naquela Terra Indígena, com o povo que ali habita, pode ser entendido como um espaço sagrado. E o é realmente. Quando se visita aquele espaço, é possível sentir a sacralidade do local. É claro que este Sagrado tem certas características, que obedecem à lógica específica inerente ao mundo indígena e, por isso, entendo que nem sempre esse sagrado seja o tipo de sagrado esperado por olhares externos, e é sobre isto que gostaria de discorrer ao longo dessas linhas – espero concluir com algum sucesso.  

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

MEU TEMPO DE CRIANÇA NOS SERINGAIS DO RIO MURU - parte 5

Por: Txai Antônio Macêdo
Da colocação Currimboque a cidade de Tarauacá


Diante a situação de saúde da minha mãe e por necessidade de que seus filhos frequentassem escolas, meu pai decidiu voltar da colocação Currimboque para a cidade de Tarauacá. Nessa época eu estava com doze anos de idade...

Nosso retorno foi muito trabalhoso, pois, assim como foi quando nos mudamos para a colocação, tivemos que levar todas nossas ‘tralhas’ nas canoas igarapé abaixo a até desaguar no Rio Muru outra vez. E assim descemos o igarapé São José, matando paca para fazer nosso rancho da viagem.

Pernoitamos a última noite de descida na colocação de seu José de Castro. Quando chegamos nessa colocação recebemos a notícia de uma festa que aconteceria naquela noite, na casa de seu Agenor Moura, localizada na margem do Rio Muru e logo abaixo da foz do Igarapé São José. Eu e meus irmãos ainda nos animamos para chegar a festa naquela noite, mas meu pai e minha mãe não permitiram, por isso nos acalmamos e ficamos conformados com a decisão. No dia seguinte saímos na confluência do rio Muru e dali era só descer até a cidade. Mal havíamos começado a descida, e, ao cruzar com outros viajantes, logo ficamos sabendo dos boatos da festa.